A feminista feminina do grupo Santander

A feminista feminina do grupo Santander

Sonia Racy

28 Março 2018 | 00h55

ANA BOTÍN

ANA BOTÍN. FOTO: CHRISTINA RUFATTO/ESTADÃO

Ana Botín é hoje a mulher mais influente do mundo financeiro global. A presidente do conselho executivo do Santander e do próprio banco espanhol raramente dá entrevista. Comanda com mão firme o legado de seu pai, Emilio Botin, e conquistou o respeito dos funcionários no mundo inteiro. Admirada por seu conhecimento técnico – costuma conversar de igual para igual com Christine Lagarde, do FMI, e mesmo com o ex-secretário do Tesouro americano Lawrence Summers –, ela está no Brasil para sua habitual e curta visita anual.

Ontem, a executiva falou, em palestra fechada, para um público inteiramente feminino – quase mil mulheres do Mulheres do Brasil, fundado por Luiza Trajano. Onde? No Teatro Santander. Elas se surpreenderam ao ouvir de sua bem humorada palestrante que também ela estava surpresa: tinha diante de si o maior público feminino para o qual já falou.

A executiva-herdeira dividiu com a plateia um pouco de sua trajetória pessoal, falando das barreiras que dificultam às mulheres ascender nas empresas – inclusive na sua. “Vivi fora da Espanha dos 13 aos 30 anos, passei por diferentes países e escolas. E fui também capaz de me casar, cuidar dos filhos. Essa flexibilidade só as mulheres têm – e é uma grande fortaleza no mundo de hoje. Estamos mais bem preparadas”, enfatizou, despertando aplausos.

Essa visão da realidade feminina permitiu que Ana fosse responsável, quando estava à frente do banco espanhol Banesto – que integrava o Grupo Santander –, pela primeira promoção de uma mulher a diretora de rede de agências, no início dos anos 2000. Para isso, teve de ignorar a recomendação do responsável pelo RH do banco, que achou absurdo esperar dois meses até que a profissional, altamente qualificada, voltasse da licença maternidade. “Esperamos dois meses, mas o diretor não durou mais dois dias no cargo”, lembrou.

Hoje, o acesso das mulheres a cargos de médio a alto escalão continua a ser um problema que ela enfrenta com disposição. “Temos 60% de funcionárias no Brasil – mais que a média do Grupo, de 52% – mas só 40% delas são gerentes e 25% estão acima disso. No conselho, são duas.” E arrancou novos aplausos ao completar: “Podemos dar melhores oportunidades de carreira às que querem cuidar dos filhos”.

Ana citou ainda o papel do sistema financeiro na oferta do microcrédito produtivo orientado, que beneficia quatro pessoas para cada uma que recebe recursos. Maior emprestador privado de microcrédito do Brasil, o Santander tem 70% de mulheres como tomadoras. “E o que queremos é que outros bancos façam o mesmo, que nos sigam”, concluiu.