Precisamos falar sobre livros

Vivemos discutindo filmes e séries de TV. Por que a literatura não pode ser tema de conversas cotidianas?

Danilo Venticinque

06 Abril 2017 | 11h10

O que você tem lido ultimamente?

Há algum tempo decidi fazer um esforço consciente para perguntar isso às pessoas com quem encontrava no dia a dia. Eram poucos os que respondiam de imediato, citando os títulos dos últimos livros que despertaram seu interesse. A maioria enrolava, dizia que a vida andava corrida e tinha alguma dificuldade para lembrar o último livro que leu. Muitos desconversavam e mudavam de assunto imediatamente. Houve até quem mostrasse alguma irritação. Como se fosse um absurdo supor que todo mundo deveria estar lendo algum livro.

Mesmo amigos que têm o hábito de ler reagiram com um pouquinho de perplexidade quando fiz essa pergunta. Não estamos acostumados a falar sobre livros no dia a dia. Soa até um pouco pedante questionar alguém sobre seus hábitos e preferências de leitura.

Pergunte às mesmas pessoas sobre as séries que elas têm acompanhado, porém, e todos terão uma resposta na ponta da língua. O mesmo vale para os últimos filmes que viram ou as canções que mais têm escutado. Televisão, cinema e música são assuntos que discutimos com naturalidade. Se você disser que não gosta de filmes ou de séries de televisão, provavelmente será visto como um alienígena. Por que os livros são percebidos de forma diferente?


Há uma série de possíveis explicações. A leitura obrigatória nas escolas, a sedução das distrações digitais, os preços de livros nas grandes livrarias, o esnobismo de alguns leitores mais eruditos. Não há espaço para discutir todas essas causas em apenas um texto. Voltarei ao assunto ao longo das próximas semanas.

Neste primeiro post, quero me concentrar no efeito comum de todas essas causas: perdemos o hábito de falar sobre livros no dia a dia, se é que algum dia chegamos a criá-lo. Os livros são vistos como algo a ser discutido em sala de aula, em pequenos círculos intelectuais ou em grupos de leitores, mas não em conversas cotidianas.

O mesmo comportamento se repete nas redes sociais e na internet como um todo. Há milhares de leitores apaixonados por aí, de todas as idades e com diferentes preferências literárias. Muitos têm blogs e canais de YouTube dedicados à literatura, alguns com um grande número de seguidores. São pessoas que estão acostumadas a falar sobre literatura. Mas a maioria só conversa sobre livros entre si. Muito pouca gente discute o assunto com amigos que estejam fora desse círculo de leitores. É raro, mesmo entre leitores vorazes, encontrar alguém que trate a literatura da mesma maneira que tratamos a música ou o cinema.

Parece bobagem, mas perdemos muito com esse comportamento. Se os leitores só conversarem sobre livros com outros leitores, não disseminarão o prazer da leitura. Continuarão sendo uma espécie em extinção.

Cabe aos leitores tomar o primeiro passo para mudar essa situação. Ainda que corramos o risco de provocar estranhamento, precisamos conversar mais sobre livros com as pessoas ao nosso redor. Perguntar o que elas têm lido ultimamente, comentar sobre os últimos livros que lemos, dar dicas de leitura para quem não tem o hábito de ler. Não com afetação ou ar de superioridade, mas com a mesma naturalidade de quem fala sobre um episódio de sua série favorita.

No início, a reação dos seus interlocutores pode ser de perplexidade. Talvez você até se sinta um pouco incômodo por tratar do assunto. Insista um pouquinho. Depois de algumas tentativas, a pergunta começará a ser vista como algo normal. Com o tempo, talvez as respostas se tornem tão naturais quanto a pergunta. Talvez você encontre novos leitores ao seu redor, ou ajude alguém a descobrir o prazer da leitura.

Experimente fazer isso em sua próxima conversa. Não importa se for um papo de bar, um encontro entre amigos, uma troca de mensagens no WhatsApp. Quando o assunto estiver esfriando, respire fundo e pergunte: o que você tem lido ultimamente?

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