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Cultura » O sopão que a Prefeitura quer proibir não é uma sopa

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28 Junho 2012 | 21h36

Causou um certo alvoroço a notícia de que a Prefeitura de São Paulo quer proibir a distribuição gratuita do sopão na região central da cidade. A medida foi anunciada pelo secretário de Segurança Urbana, Edsom Ortega, durante uma reunião na quarta-feira passada, e divulgada em primeira mão em uma reportagem do Jornal da Tarde.

As intituições que fazem esse tipo de serviço voluntário poderão ser punidas pela Prefeitura se continuarem distribuindo o alimento. A não ser que aceitem continuar o trabalho dentro de uma das nove tendas reservadas ao atendimento dos moradores de rua. Outro motivo para acabar com o sopão a céu aberto, de acordo com a reportagem, é a sujeira que fica no chão depois que o alimento é distribuído.

Para protestar contra essa medida da Prefeitura, foi criado um evento no Facebook chamado “Sopaço na Casa do Kassab”. Até agora, cerca de 1,500 pessoas confirmaram presença na manifestação, que está marcada para a próxima quarta-feira. Os indignados pretendem fazer uma grande distribuição de sopa em frente à casa do prefeito, atrás do Shopping Iguatemi.

Acontece que, apesar de 48 entidades distribuírem alimentos para moradores de rua no Centro, o sopão já é um prato quase extinto. O nome apenas é usado para designar a refeição grátis dada à população carente. Quem afirma isso é Reginaldo Ferreira, um dos representantes da ONG Anjos da Noite, que realiza o trabalho há 23 anos, numa entrevista ao Blog do Curiocidade:

Você conhece alguma ONG que distribua o sopão na região central?
Hoje não conheço nenhuma instituição que distribua sopa aos moradores de rua do centro. Temos contato com várias ONGs que atendem as populações carentes, mas sempre com outros alimentos. É uma prática que já se perdeu. Na verdade, faz muito tempo que o sopão não é distribuído aos moradores. Acredito que o nome continue sendo usado para designar as refeições gratuitas.

Por que a sopa não é mais distribuída?
Acho que existia, antigamente, um mito de que os moradores de rua não tinham dentes. Por isso, não poderia mastigar os alimentos. Não é verdade. Então não faz sentido distribuir sopa, já que é uma comida que não sustenta por muito tempo. Em meia hora, a pessoa já está com fome. Com um marmitex, a fome só vem após seis horas.

O que tem nesse marmitex?
Uma refeição completa: arroz, feijão, carne. Algo que sustenta por bastante tempo. As instituições costumam dar marmitex ou lanches. Além disso, damos cobertores e roupas. Tratamos as pessoas como seres humanos, que é o que está faltando nas iniciativas da Prefeitura.

Vocês distribuem 800 refeições por semana, aos sábados. Este número vai diminuir se o serviço for transferido para as tendas?
Com certeza. Boa parte dos moradores de rua não quer procurar as tendas da Prefeitura, quer evitar este tipo de lugar. Por isto, acho que não atenderemos tantas pessoas como antes. Mas já é a quarta vez que ameaçam proibir nosso serviço desde a época em que Marta Suplicy era prefeita. Vamos esperar para ver que rumo as coisas irão tomar.

(Com colaboração de Míriam Castro e foto de Werther Santana/AE)

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