Designer lança livro com 5.000 ícones paulistanos horrorosos

Estadão

24 Novembro 2012 | 12h15

O designer paulista Gustavo Piqueira lança nesta segunda-feira (26) seu 13º livro. Iconografia Paulistana, da editora Martins Fontes, é uma compilação de cinco mil fotos que, de alguma forma, representam o

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  • lado mais horroroso do cotidiano paulistano. Há fachadas de bufês infantis, de condomínios e de restaurantes, além de muros, calçadas e vitrines. A obra é fruto de um trabalho de um ano, em que Gustavo selecionou, na internet e em suas andanças por aí, o conteúdo icônico da cidade de São Paulo. Não foi só ele quem tirou as fotografias: o trabalho foi dividido com alguns dos 40 funcionários da Casa Rex, seu mundialmente reconhecido e premiado escritório de design. Você pode ler o primeiro ensaio do livro neste link   PDF
.


A Casa Rex, por si só, já é um exemplo do profissionalismo de Gustavo Piqueira. Localizada próxima ao estádio do Pacaembu, a construção chama a atenção pela fachada rústica e grandiosa. O interior dela é ainda mais ousado: paredes de tijolo bruto, chão de pedras, escadas sem corrimão, pé direito altíssimo, lustres pendurados por longos cabos e muito branco. O escritório atende clientes do mundo todo. Os projetos estrangeiros são, inclusive, maioria. “Só hoje, mexi em projetos da Rússia, Filipinas, Marrocos, Inglaterra e alguns países da América Latina”, enumera Gustavo.

Fachadas do espaço urbano: ícones paulistanos

O design de Iconografia Paulistana é arrojado: um espelho grudado à capa causa sensação de estranhamento ao leitor, que vê o próprio rosto ao encarar a obra. “Você acaba se enxergando neste livro, querendo ou não”, justifica. Gustavo Piqueira nasceu em Sorocaba, distante 95 km, mas logo no início da infância se mudou para a capital. “Considero-me paulistano”, confessa. Tão paulistano que a cidade já foi retratada em outros livros, como “São Paulo, Cidade Limpa” (2007) e “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” (2007). Também lançou chamado “Coadjuvantes”  (2006), que é sobre seu time de coração, o Palmeiras.

Dono de um humor corrosivo (o novo livro traz sete textos ficcionais que deixam bem claro isso),  o designer é tímido, reservado e não gosta de lidar com a exposição proporcionada por seu sucesso. Falando em sucesso, apesar da coleção de prêmios, Gustavo não sabe falar sobre o assunto: “O segredo do meu sucesso é desconhecer o significado dessa palavra”.

Vindo de uma família de classe média, Piqueira construiu seu patrimônio por conta própria. Segundo ele, os frutos são resultado de um trabalho de constante dedicação.  A essência da personalidade de Gustavo não mudou com o fortalecimento de seu reconhecimento. “Vou sempre ser um clássico classe-média”, diz Gustavo, depois de não conseguir indicar um sonho de consumo. Falar sobre dinheiro também o deixa desconfortável: “Hoje em dia as pessoas só querem saber de grana, mas isso não é tudo”, resume o tópico, em poucas palavras.

Casado há seis anos e ainda sem filhos, o escritor-designer considera sorte ter a oportunidade de fazer o que gosta. Ele diz que não precisa de hobbies: contenta-se em tocar seus projetos em seu tempo livre (incluindo aí também uma brilhante carreira de ilustrador de livros infantis). Apesar do gosto pela profissão, não se considera realizado: “Não existe a felicidade ou a realização plena”. E vai além: confessa curtir mais a leitura do que a análise gráfica. Nos seus livros de cabeceira, estão obras de Proust e Montaigne. Até o design do novo livro, que parece ter lhe custado os olhos da cara, não é tão grandioso quanto parece:  ele revela que encontrou os espelhinhos em uma loja de brindes empresariais. “Eu sei fazer coisas baratas parecerem caras”, diz Gustavo, exibindo um sorriso. Discretamente orgulhoso.

Lançamento:
Bar Balcão
Rua Melo Alves, 150, Jardins
Tel. 3063-6091
Segunda-feira, 26/11, a partir das 19h

(com colaboração de Júlia Bezerra e fotos de Tiago Queiroz/Estadão)