Como é a cerimônia de um casamento celta

Estadão

30 Maio 2011 | 21h54

Inspirada na cultura do povo celta, que viveu por volta de 2.000 a. C na região que hoje abrange Irlanda, Escócia e Inglaterra, a psicóloga Beatriz Moura Leite, 36 anos, criou um tipo de cerimônia de casamento original, sem vínculo com nenhuma religião. Ela, que celebra casamentos celtas personalizados desde 2004, se aproximou da cultura celta há quinze anos, durante uma viagem à  Austrália. Lá, conheceu uma ritualista inglesa que sabia muito sobre esse assunto. “O povo celta valoriza muito a relação do homem com a natureza”, afirma. “Gostei tanto que acabei me casando por lá mesmo, em uma cerimônia celta”.

Cerimônia é cheia de misticismo, mas não tem relação com nenhuma religião

De volta ao Brasil, Beatriz se dedicou ao estudo da cultura celta. Até que recebeu a notícia de que seu melhor amigo iria morar com a namorada. “Achei que aquilo não estava certo, era preciso fazer algum tipo de ritual de passagem”, conta. E foi especialmente para esse amigo que Beatriz montou uma cerimônia de casamento inspirada na cultura celta, dividida em nove momentos (veja mais abaixo). “Nove é o número da união”, explica. O papel de ritualista, ou seja, de realizadora da cerimônia, ficou para Beatriz. No final do evento, um casal de convidados se interessou pelo modelo criado por ela e pediu uma cerimônia parecida. “Foi assim que a coisa começou a acontecer, eu era chamada para outras cerimônias”.

Beatriz abandonou o trabalho como psicóloga para se dedicar apenas aos casamentos. São cerca de dez por mês, a maioria realizada nos finais de semana. Durante a semana, a ritualista se dedica a estudos de cada casal e à preparação de textos para as cerimônias. Ela também entra em contato com padrinhos e parentes dos noivos para dar orientações sobre o casamento. Além disso, Beatriz cuida para que os serviços de filmagem, decoração, fotografia e música do evento funcionem de acordo com os moldes da cerimônia celta. O preço do casamento realizado por Beatriz varia entre R$ 3,5 mil e R$ 4,5 mil, dependendo da data e do local escolhidos e do número de padrinhos.

Beatriz celebra casamentos personalizados há sete anos

Os nove momentos da cerimônia

1. Introdução
Beatriz avisa aos presentes que a cerimônia acolhe adeptos de todas as religiões. Durante  a cerimônia, Beatriz explica para os convidados o que representa cada elemento. “Há uma riqueza de símbolos, mas é importante que as pessoas compreendam os significados”.

2. Ritos iniciais
É o momento da entrada dos pais do casal e do noivo. O caminho percorrido até o altar simboliza as escolhas de vida que os noivos fizeram até então. Perto do altar, há uma mandala no chão, feita com folhas e pétalas, chamada ponto de união. “Representa o ponto da vida em que os dois se encontraram”, explica Beatriz. O noivo aguarda ali.

3. Acolhida
É quando entram as crianças. Meninas jogam pétalas no chão, simbolizando pureza e graça. Já os meninos atiram sementes, símbolos da prosperidade, e tocam sinos, que representam alegria. Em seguida, entra a noiva, que encontra o noivo na mandala.

4. Purificação
Beatriz lava as mãos do casal com água e sal. “A água é transparente, como a nossa conexão com Deus”, diz Beatriz. “O sal serve como catalisador de energias negativas”. Em seguida, os noivos ficam ao lado da ritualista.

Diferente dos casamentos tradicionais, na cerimônia celta os noivos ficam de frente para os convidados, não de costas

5. Oferendas
O casal escolhe previamente um ou dois amigos para serem “dagdas” da amizade, pessoas para representar bondade e sabedoria. Os dagdas preparam um texto sobre amizade e, nesse momento, lêem para os noivos. “Eles escrevem, mas eu dou assessoria”, diz Beatriz. Os padrinhos oferecem objetos especiais para os noivos, como um pote de semente para trazer prosperidade, uma mandala branca simbolizando paz ou velas representando sabedoria. Depois, acontece a “oferenda do amor”, em que a noiva lê uma carta que escreveu para o noivo, e vice-versa.

6. Palavra
Beatriz fala sobre a importância das alianças e, em seguida, entram os “dagdas da aliança”. São parentes, geralmente crianças, escolhidos pelos noivos, que entregam os anéis para a ritualista.

7. Alianças
Os pais dos noivos se aproximam do casal e seguram as alianças. Os noivos fazem uma leitura de agradecimento aos pais e, depois, a família da noiva entrega a aliança dela para o noivo, e vice-versa. “Significa que a família está acolhendo aquela pessoa”, explica Beatriz.

8. Troca de alianças
Sobre a mesa do altar, ficam alguns objetos representando os quatro elementos da natureza. A ritualista  pede para que o casal seja abençoado pela terra, representada por um prato de sal. A bênção do elemento água vem quando os noivos bebem um cálice com o líquido. O casal acende um incenso, cuja fumaça representa o ar, e uma vela, que simboliza a chama do amor. Por fim, as alianças são lavadas com água consagrada, preparada especialmente para o rito. Os noivos, finalmente, trocam as alianças.

9. Bênção final
A ritualista declara que os noivos foram unidos pelo poder do amor e da escolha, e, então, o noivo pode beijar a noiva. Os recém-casados deixam o local juntos, enquanto todos os presentes aplaudem sua saída.

(Com colaboração de Karina Trevizan. Fotos: Divulgação)