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‘Vinyl’ e Richie Finestra, mais um ‘difficult man’. Oba!

Cristina Padiglione

14 Fevereiro 2016 | 22h29

bobby

Richie Finestra, personagem magistralmente vestido por Bobby Cannavale em Vinyl, nova série da HBO assinada por Mick Jagger, Martin Scorsese e Terence Winter, poderia tranquilamente figurar na galeria de Difficult Men, livro de Brett Martin que se tornou uma bíblia para estudiosos sobre a nova era de ouro da TV norte-americana. Falamos aí de uma obra que elenca grandes momentos de bastidores por trás das cenas de títulos consagrados a partir de Sopranos,  divisor de águas na criação e produção do gênero nos Estados Unidos, jogando holofotes sobre personagens masculinos emblemáticos que exibem gigantescos contrastes, a começar pelo próprio Tony Soprano (James Gandolfini em Sopranos), seguido por Don Draper (Jon Hamm em Mad Men) e Walter White (Bryan Cranston em Breaking Bad).

Se vale a máxima de que as melhores histórias dependem do leque de conflitos, e vale, nada pode ser mais estimulante que um homem dividido entre comportamentos de extremos opostos.

Assim como os “difficult men” do passado, Finestra é um gênio no seu ramo. Fez fortuna vindo quase do zero. Limpou vômito de muito bêbado no balcão onde servia como barman. Dono de bons ouvidos e com algum tino para negócios, veio a se tornar dono de uma grande gravadora na Nova York dos anos 70, quando o meio fonográfico ainda era uma indústria capaz de ditar hits e grandes fortunas.

Assim como Tony, Don e Walter, exibe larga paleta de cores, digamos, do temperamento à moral. Trafega com maestria entre músicos e empresários exaltados, drogas de toda espécie, sexo fácil e rock’n roll, com perdão pelo clichê. Resiste, o quanto pode, à atração que suas narinas sentem pelo pó branco, produto distribuído em larga escala pelo métier que frequenta, na tentativa de ser um marido e pai de família bacana. Daí a capacidade de negociar com radialista mafioso, em meio a festas onde swingue nem sempre tinha conotação musical, sem disposição para o sexo fora de casa. Afinal, a cocaína, e não exatamente a infidelidade, é uma ameaça ao seu casamento – pelo menos no início do enredo.

No ar a partir deste domingo, à meia-noite, pela HBO, o primeiro episódio estará disponível já na segunda, dia 15, a todos os mortais, pela aba “experimente” da HBO GO. Aproveite. A abertura da série soma duas horas, com direção do próprio Scorsese, e remexe em um contexto que vai além do comportamento e da música, das drogas e da falta de limites em tudo. Alcança as feridas internacionais – como a sequência em que a Polygram, prestes a comprar a gravadora de Finestra, esbarra no ressentimento ainda muito latente herdado da 2ª Guerra Mundial, entre alemães e americanos: o empresário do Led Zeppelin simplesmente se recusa a entregar sua banda a uma multinacional nascida na Alemanha, contra quem seu pai lutara, e morrera, nos anos 40.

‘Vinyl’ terá mais 9 episódios, sempre no ar à meia-noite de domingo, praticamente em exibição simultânea à dos Estados Unidos. A música é boa, o roteiro, excelente, e Richie Finestra, mais um objeto de estudo na galeria de grandes personagens, com promessa de indicação a Emmy e Globo de Ouro para Bobby Cannavale, nas próximas rodadas.

Abaixo, Scorsese e Jagger, idealizador de ‘Vinyl’, que funcionou como confiável consultor para o universo abordado na série e ainda “emprestou” o filho, James Jagger, para viver um vocalista em cena.

 

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