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Paulo Autran e a edição de cada canal

Cristina Padiglione

14 Outubro 2007 | 01h07

Paulo Autran não era de perder muito tempo com TV, mas a Globo tem a maior coleção de suas cenas.
Ainda assim, a edição do “Jornal Nacional” de sexta-feira, a que anunciou sua morte, tratou-o como “um dos mais queridos atores brasileiros”.
Não, não era “um dos”. Era, efetivamente, O Maior ator brasileiro.

Usa-se o artigo definido para poucos. Autran era O Maior ator brasileiro. Qualquer um que morra hoje, entre os maiores, será “um dos”. Já não há um segundo ator, há alguns que merecem reinar na galeria dos maiores. O posto DO MAIOR ficará vago até que se tenha a certeza de um novo singular.

Desde que Elis Regina morreu, por exemplo, permanece vago o posto de “maior cantora brasileira”. Temos cá excelentes cantoras, mas nenhuma que se possa cravar como A MAIOR. Ainda.

Temos “a atriz”, que é Fernandona, a Montenegro.
E tivemos “o ator”, que foi Autran.

O “Jornal da Band” o tratou como “o maior”, sem receio de errar.
O “Jornal da Record” fez pior, chamou-o de “o maior do teatro”, como se houvesse um outro maior da TV ou do cinema. Era o maior e ponto.

E o “JN” deste sábado, ao noticiar a despedida, cometeu seus tropeços.
Mostrou o comovido discurso do ator, em tributo recebido há pouco mais de mês, como indício da falta de ar que o afligia.
A seqüência completa seria Autran dizendo que não costumava chorar, a não ser quando o personagem pedia. Em seguida, ele dizia que já não conseguia falar porque (longa pausa)… já estava chorando.
E o que fez a edição do JN? Cortou a frase inicial, quando ele diz que não tem o hábito de chorar, a não ser pelo personagem.
Ora, quem não viu a seqüência completa em outros canais certamente se impressionou com aquela pausa toda e a confissão de quem já não podia falar.

Por essas e outras é que o homem preferia consumir seu tempo com o teatro, tendo recusado tantas propostas da TV.