Cristina Padiglione

13 Março 2016 | 13h23

romero

Antes tarde, faço aqui meu balanço sobre A Regra do Jogo, uma produção digna da melhor prateleira das produções televisivas brasileiras. O enredo de João Emanuel Carneiro vai na contramão desse imediatismo que acomete a era em que vivemos, com a necessidade de saber de cara quem é bom e quem é mau, quem roubou e quem foi roubado, com sentenças que antecedem o fim dos julgamentos, como temos assistido nos últimos dias, na política nacional.

O que deveria ser visto como ousadia foi tratado como “defeito”. Ouvi de muita gente que se diz esclarecida, bem informada e letrada: “ah, mas não consegui entender ainda qual é a desse Romero (Alexandre Nero)”. Ou “as relações são confusas, por que o Dante (Marco Pigossi), filho adotivo do Romero, mora na mansão do Zé de Abreu?” Apesar de se apresentar numa embalagem altamente sedutora, com atores de primeira grandeza, evidente direção de elenco, trilha sonora perfeita e enquadramentos que foram muito além do plano-e-contraplano chapado (obra da tal caixa cênica criada pela diretora Amora Mautner), faltou paciência de uma fatia da plateia para se permitir montar um quebra-cabeças em que os enigmas eram parte da graça da história – não deveriam nem poderiam se denunciar de pronto.

 

A novela trabalha o tempo todo com a dualidade do ser humano, em especial, por meio dos personagens de Nero e Tony Ramos, diante de quem me ajoelho e digo “Ave!”. A escalação de Tony como o pior sujeito que um folhetim brasileiro já retratou, capaz de manipular o próprio filho e encomendar sua morte no último capítulo, é coisa de entrar para a história. Para a plateia feminina, que, exceção feita ao futebol e ao UFC é maioria na frente da TV, isso dói ainda mais quando o filho é o Cauã Reymond. Está feito um conflito de contrastes gritantes, prato cheio para um bom enredo. Desde que Tony Ramos é Tony Ramos, dizem que o público não o aceita como vilão. Em Torre de Babel, a virada do homem que parecia não ser boa praça, no início, em cara bacana, do meio para o fim da trama, foi apontada como resultado de uma suposta rejeição da plateia em ver o ator como sangue ruim. O autor, Silvio de Abreu, desmentiu e até hoje desmente essa versão, assegurando que a virada de José Clementino, papel de Tony, estava programada desde a sinopse da novela, com a proposta de mostrar que uma pessoa pode pender para o lado bom ou o lado mau da força, dependendo de quem está a sua volta. Na ocasião, a personagem de Maitê Proença, de boa índole, ajudou José Clementino a se tornar um cara melhor.

ZeMaria

O fato de Zé Maria estar na pele de Tony Ramos, sujeito de imagem irrepreensível na vida real, permitiu que o público, assim como Juliano (papel de Cauã Reymond), Adisabeba (Susana Vieira) e Djanira (Cássia Kis) acreditassem que talvez ele fosse uma boa pessoa. Enganou a todos nós, que, até o último capítulo, permanecemos na dúvida sobre as reais intenções de Zé Maria. Quando ele dizia que ia se entregar, mas antes precisava cumprir uma última tarefa – matar o pai da facção, Gibson (Zé de Abreu)-, aguardamos pela execução do que nos parecia uma boa missão. Gibson, afinal, sequestrou a própria filha, Kiki (Débora Evelyn), colocou a outra, Nelita (Bárbara Paz) num manicômio e a ameaçou com revólver nos momentos finais, e poderia ser tratado como vilão mor de A Regra do Jogo. Tão ruim quanto Zé Maria, mas que, mesmo nos momentos de surto total, não conseguiu acabar com as filhas de fato, como Zé Maria pretendia fazer com Juliano no último instante. O sujeito era ruim porque era ruim mesmo, sem atenuantes.

Foi esse o cardápio que João Emanuel esfregou na cara do telespectador do primeiro ao último capítulo, batizado como O Juízo Final, mesmo título da canção sustentada na voz de Alcione, na abertura do folhetim, desde a estreia. Diz Juliano a Romero: “Eu sei que dentro de você tem uma guerra, tem um demônio e um santo que estão disputando o mesmo lugar, e o demônio ganhou, ganhou e ganhou, mas depois o santo começou a tomar um outro lugar, você é bom”. Em seguida, é salvo pelo mocinho que queria, mas não conseguia ser vilão, personagem complexo, rico, dúbio como tanta gente é na vida real, e, por isso mesmo, digno de aplausos para autor, ator e diretores. O temor de reprisar Nero como protagonista em tão curto espaço de tempo se dissipou já no primeiro capítulo: Romero em nada remetia ao Comendador de Império, penúltima novela na fila do horário, antes de A Regra do Jogo. Houve até quem se espantasse em saber que se tratava do mesmo ator.

Queriam de João Emanuel uma nova Avenida Brasil (2012), novela que se tornou fenômeno no País e lá fora, sendo hoje o título da TV brasileira mais vendido no exterior, exportado para 130 países. A Regra do Jogo passou longe de ser tratada como fenômeno de público, mas nem por isso fica aquém da outra na concepção da história. A saga do lixão pedia que as peças do jogo fossem apresentadas como eram, de cara, ao contrário do tabuleiro da produção mais recente. E teve Carminha by Adriana Esteves, fator que mobilizou o público.

A Regra também enfrentou Moisés, personagem clássico de uma narrativa absolutamente maniqueísta, na contramão de Romero & cia., pela Record. Os Dez Mandamentos fez estrago na audiência da novela das 9 da Globo desde Babilônia, que antecedeu A Regra. A gangorra do ibope só permitiu que a Globo se reerguesse depois do fim do folhetim bíblico da concorrência. Mas João Emanuel resistiu bravamente à pressão para tornar sua história mais mastigada, cedendo às estratégias da concorrente.

RuiRegra

Das tramas paralelas (tão paralela que nem se cruza com o eixo central), fico com o núcleo de Bruno Mazzeo, Monique Alfradique, Chris Vianna e Fábio Lago. O casal do asfalto se muda para a favela em busca de menos taxas e obrigações, e mais curtição. Trocam de pares no meio do enredo e depois destrocam, traçando a busca do casal da favela por valores culturais mais cabeça.  Os antes bem alinhados da zona sul abastada terminam a trama se jogando no funk, enquanto os “favelados” originais procuram entender de ópera, obras de arte e outros idiomas, a caminho da primeira viagem a Paris. Como diria Atena (Giovanna Antonelli), gosto disso!

Meus aplausos finais a Tonico Pereira, gênio dos gênios, Giovanna Antonelli, Marcos Caruso, Otávio Müller, Juliano Cazarré, Cássia Kis, Susana Vieira, Suzana Pires e Maeve Jinkingns, a Domingas, que apanhou muito, sob o clamor da audiência. Vou sentir falta de Atena, Feliciano, Rui, Tina e, claro, de Romerito.

Perdeu quem não soube pensar – descontando aí um exercício imenso que a gente teve de fazer para continuar a acreditar naquela facção que era tão temida, mas não conseguia matar ninguém, e naquela polícia Fucker & Sucker encabeçada por Dante, o personagem mais enganado de toda a história, de vocação zero para o ofício escolhido. Mas, voltando os olhos para a vida real e uma sucessão de acontecimentos nada críveis, quem pode exigir alguma lógica da ficção?