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Globo não se manifesta sobre as ‘histórias de bicha’ que Benedito Ruy Barbosa odeia

Cristina Padiglione

11 março 2016 | 00:09

Bene

Procurada pelo Estado para se manifestar sobre as declarações do autor Benedito Ruy Barbosa a respeito de sua rejeição a personagens gays e à abordagem do assunto em suas novelas, a Globo, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que não vai se pronunciar. A filha, Edmara, disse que estava ocupada demais com o texto de Velho Chico, que estreia nesta segunda-feira, e não falaria sobre o assunto. Ao jornal ‘O Globo’, o diretor Luiz Fernando Carvalho, que assina a direção de núcleo do folhetim, afirmou que nem ele nem sua equipe compactuam  com a opinião do autor. Para Carvalho, “foi um momento muito infeliz” do autor.

O QUE ACONTECEU?

Foi quando conversava com três ou quatro jornalistas, reservadamente, no auditório do Museu do Amanhã, pouco antes do evento de lançamento da novela Velho Chico, que Benedito disse odiar “história de bicha”. A filha, Edmara, imediatamente discordou com um “não, pai! o que é isso?” Mas ele logo rebateu: “é a minha opinião, deixa eu falar”. O neto, Bruno, tentou explicar que talvez o fato de o avô só abordar temas de transgressão que ele domine muito bem, o que não é o caso da questão homossexual, justifique sua posição.

O assunto veio à tona quando ele foi questionado se teria feito mudanças no enredo em razão de a novela, inicialmente planejada para as 18h, ser transferida para a faixa das 21h. Disse Benedito que não havia isso. O que ele conta às 9 da noite pode perfeitamente ser contado às 6. E, espontaneamente, falou sobre a rejeição a personagens gays.

“Odeio história de bicha. Você pode aceitar, mas não pode transformar isso em aula pras crianças, esse é o problema. Eu tenho dez netos e 4 bisnetos, tenho um puta orgulho de serem todos machos pra cacete.”

Uma repórter então lhe pergunta se ele não acha que tem de discutir casamento igualitário na novela.

“Não, não tem. Eu respeito isso, não sou contra nem a favor. O que eu acho que não é justo é transformar o ‘só é normal o cara que é bicha’, o cara que não é, não é normal. Quando a novela retrata isso, o povo não quer. Eu tô cansado de ser perguntado em todo lugar, em Minas, na Bahia, em Pernambuco, as pessoas falam ‘para com isso!’.

Bruno Barbosa, o neto, intervém, tentando explicar: “Eu leio esse discurso dele de uma forma menos rígida do que como pode ser ouvida. Acompanhando, lendo, e pelo que eu conheço da obra do meu avô, a maneira como ele trata de uma transgressão, como foi o caso da reforma agrária em O Rei do Gado, ele foi a fundo no tema e acho que, no discurso dele, o que sobra pra mim é não tocar em algo que ele não tenha a ciência e o conhecimento profundo pra discutir. Então, talvez não seja… é um universo que não compete a ele. Agora, quando você começa a discutir com ele sobre o Velho Chico, essa sensibilidade familiar da discussão, das grandes gerações, é um tema que ele domina.”

A essa altura, o constrangimento leva alguém a mudar de assunto. Volta-se a falar da novela, em si. Mas Benedito se mostrou incomodado com a percepção de não ter sido compreendido. E retomou a questão homossexual.

“Pra vocês entenderem: eu não sou contra (homossexuais), se alguém da minha família tiver o problema, porque é um problema… (O pai a mãe) dizem: ‘ah, se for bicha tudo bem’. Mentira. Eles sofrem pra caramba. É seu filho, você tem que aceitar, tem que beijar, tem que amar, mas quando você tem na mão 80 milhões assistindo a novela, eu tenho que ter responsabilidade com as pessoas e tem que saber que tem muito pai que não quer que o filho veja porque ele não sabe explicar, não sabe colocar.”

Nesse momento, uma das assessoras da Globo pede que a conversa seja interrompida, pois ele tem de ser levado ao saguão, para fotos com o elenco.

Houve espanto em torno do episódio, houve o constrangimento já mencionado, mas também a percepção de que trata-se de um senhor de quase 86 anos que preserva os valores assimilados na infância, alguém que não resiste a meia dúzia de palavras nas narrativas de seus causos, sem começar a chorar. Alguém tão cioso das ideias aprendidas há 60, 70 anos, quanto do sotaque caipira preservado ao longo de décadas vividas na cidade grande. Conservador, evidentemente, mas longe, muito longe de ser um Bolsonaro a discursar contra os gays. Falando assim, vamos cá notar, de cara que não há personagens gays nas novelas de Benedito, é verdade, mas também não há cartazes ou diálogos clamando pela legitimidade única do casamento entre sexos opostos. Tem até diabo – e toda novela dele tem lá uma lenda sobre o cramulhão, mas nada de gay.

É uma posição que se exibiria em público com tranquilidade na juventude dele. Hoje, não mais. Mas é lá a maneira que tem de contar sua história. Que muito pai não quer ver o assunto na TV, soubemos bem pela péssima reação de boa parte do público ao casamento das personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg em Babilônia. É preciso resistir à tentação de ceder a isso, mas, à época, a trinca de autores Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, que faz franca oposição à homofobia, trancou as pobres senhorinhas no armário, atendendo também ao gosto dos pais que não têm competência para explicar aos filhos uma relação entre pessoas do mesmo sexo.

Novelas da Record também não têm gays, em respeito à igreja que controla a emissora. E foi para lá que uma parcela do público mudou de canal, para fugir de Fernanda e Nathália, lembram?

Novelas de Manoel Carlos se ocupam do Leblon, sempre, assim como novela de Gilberto Braga obrigatoriamente se abriga na zona sul carioca e novela de Silvio de Abreu invariavelmente trafega por São Paulo. Nada disso justifica a resistência a homossexuais nas novelas do Benedito, mas foi preciso que o próprio autor mencionasse isso para que se percebesse a ausência desses papéis em sua obra, onde o matuto, o caipira e alguma ingenuidade dão o tom maior de sua assinatura.