Final da ‘Grande Família’ é digno de virar objeto de estudo
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Final da ‘Grande Família’ é digno de virar objeto de estudo

Cristina Padiglione

12 Setembro 2014 | 02h32


Para fazer gol, não basta ser craque. É preciso que o time dê liga.

A Grande Família tinha liga, e como tinha. Do elenco à direção, da direção à autoria, tudo funcionava como uma orquestra – ainda que como em qualquer casamento, tenha enfrentado lá suas picuinhas de bastidores entre um colega e outro, o que jamais chegou à percepção do público.

Daí que não deveria surpreender (mas, que diacho,  como não se surpreender?) a perfeição harmônica do episódio final da série mais longeva da TV, consumidora de 14 anos de nossas vidas, exibida há pouco pela TV Globo. Voto pela publicação desse roteiro, pelo menos o derradeiro, em livro, objeto útil que será ao estudo dos zilhões de produtores que ultimamente deram para chorar que o Brasil não tem bons roteiristas, e dos candidatos a roteiristas em busca de uma história ao sol. Convém estudar o script da despedida da Grande Família, se não por questão profissional, por afeto mesmo, o que é o caso da maioria da plateia que abasteceu a longevidade da série.

A ideia de criar um seriado de TV inspirado em Lineu, Nenê, Tuco, Agostinho, Maria Izabel, Paulão e companhia, foi excelente. E, que alívio, a boa ideia não foi jogada às traças. Ao contrário, foi muito bem executada.

“Um seriado inspirado na nossa família? Quem vai querer ver isso na TV?”, questiona Lineu/Marco Nanini.

“Mas a gente é tão comum”, alega dona Nenê/Marieta Severo a um Daniel Filho em papel de diretor de TV disposto a convencer a família Silva.

“Por isso mesmo!”, responde o diretor, anunciando que será uma comédia.

Lineu se ofende, diz que sua família não será alvo de chacota, e refuta a ideia. O diretor já começa a achar que isso não vai dar certo. Que esse Lineu não tem humor. “Mas o Lineu é um mau humorado que é engraçado!”, argumenta Paulão/Evandro Mesquita. “E toda comédia tem um personagem assim”, diz Tuco/Lúcio Mauro Filho. “Os Trapalhões tinha o Dedé”, completa. “O gordo e o magro tinha o gordo”, fala Agostinho/Pedro Cardoso. “E  na Branca de Neve e os Sete Anões, tinha o Zangado”, fecha Paulão.

Daniel Filho volta a bater à porta de Lineu, que resiste. “São apenas duas palavras: ‘Tony Ramos’!”

Eis que o próprio Tony Ramos, vestido de Lineu, adentra a casa dos Silva. Lineu se derrete. “Seu Tony, o senhor é o Lineu com up grade!, diz Agostinho. Tony Ramos trata Lineu como herói, alguém que lutou para  criar seus filhos com valores éticos, coisa e tal. E implora a Lineu, “por favor”, clamando por um “sim” que aprove sua escalação para o papel do patriarca.

Lúcio Mauro Filho e Marcelo Adnet protagonizaram um breve e intenso show de imitações, na pele de Tuco – o inspirador e o inspirado. Fizeram Dinho Ouro Preto, Silvio Santos, Lula. Divertiram-se e divertiram o sujeito da poltrona.

Nenê se choca ao assistir a si mesma em pele de Glória Pires.

Paulão, que une Evandro Mesquita a Alexandre Borges, e sua Lurdinha, personagem de Maria Clara Gueiros interpretada por Luana Piovani, justificam uma troca de casais na oficina da trama, tudo sob o pretexto do tal laboratório de estudo honrado por atores.

Mas a coisa só vai melhorando. Mendonça, personagem de Tonico Pereira, será vivido por… Tonico Pereira. A sugestão é de Tony Ramos. “Você é muito parecido com o Tonico Pereira”, ele lhe diz, enchendo Mendonça, ou o próprio Tonico, de elogios ao tal Tonico, que depois contracena com ele mesmo. Genial.

Ao ser apresentado ao seu intérprete, Lázaro Ramos, Agostinho menciona que eles não são parecidos fisicamente. “Não tenho essas características afrodescendentes”, fala.

Com diálogos primorosos e gente mais que habilitada a proferi-los, escoltada por uma direção segura e concisa, o show se consumou com aplausos.

Diferentemente das novelas, que ficam no ar por oito meses e ocupam quase duas horas para conseguir fechar o último capítulo, o derradeiro episódio de A Grande Família teve menos de uma hora.

Ainda no início do capítulo, antes mesmo de saber que a fama a aguarda, a família Silva fala, à mesa, sobre a mudança de endereço, do subúrbio, para a Barra. É a mais típica representante da nova classe C em ascensão, o que rendeu divertidos posts no Twitter, associando o crescimento da Grande Família aos governos de Lula e Dilma.