Cristina Padiglione

09 Março 2016 | 01h17

 

FAGUNDES E BENEDITO
Foto de Marco Arcoverde/Estadão

Em tempos de tamanha polarização ideológica, quando o governador não pode liberar a principal avenida de São Paulo para grupos que pensam diferente, sob um real risco de segurança pública, ou que a polícia tem de separar torcidas de times distintos, sob risco de morte de alguém, cabe uma reflexão sobre a (falta de) tolerância vigente nesses dias para a aceitação de divergências. Foi analisando a obra de Benedito Ruy Barbosa, de quem já fez pelo menos quatro novelas, que Antonio Fagundes levantou a questão. Eis o que ele nos diz:

“Uma característica do Benedito que eu acho que é fantástica e que talvez a gente não veja isso normalmente, é que ele não tem inimigos. Os personagens dele se dizem inimigos, mas a gente percebe que eles são adversários, porque, se sentarem pra conversar, aquilo vai passar. E nós estamos vivendo um momento no Brasil em que isso é muito importante. Nós não podemos ser inimigos daqueles que pensam diferente da gente. Nós não podemos sair pra rua com pedaço de pau pra bater em quem pensa diferente da gente, qualquer que seja o lado. Porque esse é o pensamento de qualquer mal que o mundo está atravessando agora: a falta de percepção do outro. Se por acaso eu não concordo com o outro, eu não vou matar o outro por causa disso, nem vou querer morrer por isso. É uma característica das novelas do Benedito.”

Fagundes, que fará na fase contemporânea o coronel vivido por Rodrigo Santoro, defende que seu personagem, latifundiário das cercanias do rio São Francisco, “não é um vilão e não será”. “E se começar como, vai se transformar”, concluiu, lembrando que em O Rei do Gado, os rivais Mezenga e Berdinazzi, representados por ele e Raul Cortez, terminavam como amigos rabugentos.

E segue com o raciocínio que distancia o termo passional “inimigos” do técnico “adversários”: “Eu penso diferente de você, mas e daí? É aquela frase do Voltaire: ‘Posso não concordar com nenhuma de suas palavra, mas defenderei, até a morte, o vosso direito de pronunciá-las.’ Talvez daí surja uma terceira via muito boa. Nesse momento, tá ficando perigoso, isso. O Brasil é um país tão carinhoso com o resto do mundo e não tem sentido a gente se odiar por nada.”

Fagundes, que num passado bem distante foi militante do PT, há tempos deixou de falar em siglas partidárias. Certa vez, ainda nos idos de Renascer, quando o questionei se havia mudado de opinião, ele disse que não se tratava disso. Explicou que participava de campanhas eleitorais com toda a convicção, mas que depois de eleitos, quando um candidato que apoiara eventualmente cometesse alguma ação com a qual não concordava, ele não tinha mais direito a um tempo na propaganda política para fazer suas ressalvas e dizer, por exempo, “com isso eu não concordo”.

Durante a festa de lançamento da novela Velho Chico, que estreia nesta segunda, Fagundes falou ainda sobre outros assuntos, sempre com uma capacidade de raciocínio e argumentação cada vez mais raros. Confira a seguir:

NOVELA RURAL

“Acho que faz falta, o Brasil é um país de interiores. Se você pensar bem, a grande área do Brasil não tá no litoral, é um país de dimensões continentais em que o litoral representa muito pouco geograficamente. Demograficamente, talvez represente mais, mas é um país que tem muita coisa desconhecida para o próprio brasileiro. O Rio São Francisco, fala-se aí sobre a transposição, mas qual a importância dele pra o Brasil, praquela zona, o que tá acontecendo com aqueles seres humanos? Acho que precisa ter um olhar pra lá de vez em quando e não tem ninguém melhor pra fazer isso que o Benedito.

MELODRAMA

“O folhetim sempre foi assim, a gente não tem que ter vergonha, é uma história que está sendo contada, por que tem que ter vergonha de ter isso ou aquilo? Se tem uma coisa que eu nunca entendi, mas que é universal, é que as pessoas odeiam comédia. Pode ver que não tem nenhum Oscar pra filme de comédia, é considerado um gênero inferior, e é o contrário, meu Deus! Talvez haja aí uma coisa política que vem de séculos atrás, talvez dos gregos, que a comédia machuca, a comédia atinge, a comédia perturba, a comédia mexe com o poder. Então, começaram a dizer que a comédia era ruim. O melodrama também tem essa força. Se eu sou capaz de fazer você chorar , você pode se perguntar: ‘peraí, isso bateu em mim por quê?’ ‘por que eu estou tão emocionado?’ Então, não existe gênero menor, existe aquele que é visto preconceituosamente ou não. Eu, por exemplo, adoro o Homem Aranha, não tenho o menor problema de dizer isso porque eu adoro filme de terror, eu quero é que seja bom. Não é por ser melodrama ou comédia ou tragédia, é um bom texto e um bom texto pode ter tudo isso. Mas eu tenho certeza que não vai ficar só nisso, eu conheço o Benedito, a Edmara e o bruno (filha e neto do autor, responsáveis pelo texto), eu conheço  o Luiz Fernando, vai transitar por muita coisa aí.”

ESCAPISMO

“Acho que a novela brasileira não é escapista por definição. Novela brasileira na Venezuela é chamada de telenovela de rotura, ou seja, coisa de protesto. Pra eles, a nossa novela discute a realidade brasileira, de uma forma que a deles não discute a deles. A gente já tá fazendo aqui há muitos anos, há décadas, um trabalho sociológico, político, educacional, lutando contra preconceitos. Agora, a função primordial da novela é entreter, tem que fazer isso sem ser chato.”

 

CONCORRÊNCIA

“Tem que ter mesmo, é até bom pra TV Globo, ter alguém com quem ela possa dialogar em termos de qualidade, de proposta. A TV Globo reage e isso é bom, e vai fazer a Record reagir também porque, caso a nossa novela consiga superar a deles, eles vão ter que rebolar do lado deles. E se for o contrário, a gente vai ter que rebolar aqui. Eu acho sempre muito positivo, muito bom.”