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E por que a TV deveria ser melhor?

Cristina Padiglione

29 Outubro 2007 | 01h25

Lendo os comentários do post anterior, e não que eu queira defender que a nossa TV transborde qualidade, não, longe disso, mas não pude deixar de lembrar de um trecho extraordinário que o extraordinário Max Nunes escreveu para o livro “50/50”, organizado pelo Boni em 2000, por ocasião do cinqüentenário da TV brasileira.
Diz o Max (pra quem não sabe, um dos melhores redatores de humor que a nossa TV já produziu):

“Muita gente acha que a nossa televisão não é muito boa, avaliação preconceituosa e injusta. Num país em que o dinheiro não é muito bom, em que o ensino não é muito bom, em que até o governo não é muito bom, por que a TV, que é uma das nossas melhores coisas, teria que ser maravilhosa?”.

Tudo bem, Max Nunes é do tempo em que a TV não temia os riscos da experimentação (até por falta de opções, só lhe cabia apostar na ousadia e na adaptação de idéias já avalizadas pelo rádio).

O que eu queria dizer aos nobres leitores é: a TV pode não gozar da mesma inventividade de 10, 20 anos atrás, mas não se pode reduzi-la a lixo. Temos aí boas minisséries incentivando a leitura de bons livros, boas sacadas jornalísticos (por que ninguém lembra de um Roda Viva, de um Canal Livre, de um Provocações???) e bom entretenimento em algumas séries e novelas que, na contramão do preconceito geral, fazem pensar, sim.
Não são crimes e castigos, adultérios ou incestos que determinam a qualidade do roteiro (Dostoievski e Nelson Rodrigues têm nesse menu sua grande genialidade).

Também não é o caso de sentir “culpa” intelectual por apreciar a diversão dos programas de auditório, algo presente na TV desde o seu primeiro suspiro, ou de se encantar com o futebol, por mais fraco que esteja o espetáculo da bola, vá lá.
E, mesmo para o debate em torno da manipulação religiosa ou política promovida por esta ou aquela emissora, convenhamos, os pecados dessa gente, no passado, acabaram por produzir um telespectador mais vacinado, dono de uma consciência crítica que já não engole qualquer cascata e que obriga a TV a ser, no mínimo, mais sutil em eventuais tentativas de fazer a cabeça do telespectador.

Por toda essa conta, prefiro apostar que a platéia esteja desligando a TV por dispor de outras opções de entretenimento. Esse pluralismo, sim, é mais saudável que qualquer script. Há, além do melhor acesso à internet, maior oferta de programas gratuitos fora da TV, maior conhecimento e acesso sobre o que fazer fora de casa, e, naturalmente, maior alfabetização gerando interesses além-tela, sem que isso signifique a “ignorância” de quem curte um bom controle remoto.