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Comoção e engajamento marcam apresentação de ‘Velho Chico’
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Comoção e engajamento marcam apresentação de ‘Velho Chico’

Cristina Padiglione

26 Fevereiro 2016 | 16h38

Coletiva Velho Chico

João Miguel Jr./DIVULGAÇÃO

Fabíula Nascimento e Camila Pitanga só choravam, enquanto Marcos Palmeira, deitado no chão, observava tudo do seu canto, com uma garrafinha térmica ao lado. A apresentação de Velho Chico, próxima novela das 9, no galpão onde o diretor Luiz Fernando Carvalho realiza seus trabalhos na Globo, dispensou perguntas na linha revista Caras e concentrou a conversa no processo de produção do folhetim, com discursos emocionados, engajados e acadêmicos – sim, um grupo de pesquisadores, professores e alunos de dramaturgia convidados pela Globo conspiraram também a favor de um tom que normalmente não se sustenta em lançamento de novelas.

Nada de perguntas sobre o cabelo da Dira Paes, como brincou Fabíula Nascimento, nada de alguém perguntar sobre o signo de Rodrigo Lombardi no horóscopo chinês. Nem uma palavra sobre como Rodrigo Santoro faz para manter a boa forma.

Que bom. Entendo que muitos colegas sobrevivam de publicações interessadas nessas questões, mas alguns processos de criação e produção merecem ser vistos de dentro para fora, para muito além das aparências que vendem revistas.

A conversa se debruçou sobre o trabalho de figurinistas, a “segunda pele” que a roupa promove na construção do personagem, sobre a cenografia e o resgate de construções em ruínas, no sertão nordestino, sobre a prosódia e a musicalidade presentes nas cercanias do Rio São Francisco, com texto de Benedito Ruy Barbosa, na preparação de atores e num cansaço celebrado com a satisfação do trabalho. “Estou muito cansado, mas estou muito feliz”, sagrou Santoro, que participa de 18 capítulos da primeira fase.

A presença no tablado do galpão anunciava, à entrada, que era preciso tirar os sapatos para pisar naquele solo sagrado (‘solo sagrado’ é por minha conta, mas Rodrigo Lombardi bem que usou esse termo para descrever o respeito de todos pelo trabalho de criação desenvolvido no galpão, onde o elenco teve aulas diárias, por mais de dois meses, das 14h às 18h, usando máscaras que permitem aos atores se despirem de seus eus, como narrou Marcelo Serrado). Entre pantufas e pés descalços, boa parte do elenco conversou com alunos, professores pesquisadores e jornalistas sobre o épico que vem aí.

“Se o povo discutir em casa 10% do que vamos ver e ouvir na novela, já será uma vitória para o nosso país”, disse Umberto Magnani.

Atores nordestinos escolhidos para a produção manifestaram o orgulho de participar da obra e todos, sem exceção, celebraram o comando de Luiz Fernando Carvalho como alguém capaz de incentivar um trabalho coletivo que se assemelha mais ao teatro do que ao ritmo industrial da TV.

Falam de amores, rancores, injustiças sociais e valores de comportamento à beira do Rio São Francisco. Entre a primeira e a segunda fase, os amores lá estarão, “mas o rio estará morrendo”, poetiza Luiz Fernando.

“Essa é uma novela emergencial, como vocês sabem”, ele lembrou. Chamado às pressas para botar a história no ar após ‘A Regra do Jogo’, ele cuidou de transportar para as 9 um enredo originalmente criado para as 6 da tarde, selecionado pela Globo para ocupar a vaga que seria de uma trama de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villares, preterida em razão do contexto político em ano de eleições.

Carvalho se orgulha de ter erguido todo esse contexto tão festejado pelo elenco em pouco mais de dois meses. Estreia dia 14, deslocando o cenário, enfim, do eixo Rio-São Paulo, que domina a faixa horária há coisa de 13 anos.

Que venha o ‘Velho Chico’ e o épico de Benedito.

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