Ainda Carminha, para sempre Carminha: amém, Adriana
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Ainda Carminha, para sempre Carminha: amém, Adriana

Cristina Padiglione

23 Outubro 2012 | 21h06

RENATO ROCHA MIRANDA/DIVULGAÇÃO

            Sim, sei que outra história já tomou conta do horário e que Carminha não mais está entre nós, uma pena.

Antes de partir para qualquer comentário sobre o que já está no ar, devo um texto a Adriana Esteves, que me comoveu profundamente até o fim, e principalmente no fim de sua Carmen Lúcia em Avenida Brasil.

Acompanhei os dias difíceis que ela, Adriana, atravessou nos idos de Renascer (1993), quando encarnou  Mariana, uma antagonista que não necessariamente seria uma vilã, mas que ficou a oscilar entre ser bacana ou vigarista, dúvida alimentada pelo texto de Benedito Ruy Barbosa. Adriana, que pouco tempo antes havia sido alçada pela imprensa ao posto de grande estrela da TV, não soube se defender do massacre de críticas que a levaram do céu ao inferno de um dia para o outro.

Ao fim de Renascer, recolheu-se. Encarou uma depressão feroz, para voltar vacinada contra oba-obas efêmeros dois anos depois.

Da coadjuvância de Top Model ao protagonismo de Carmen Lúcia, muitas mocinhas e algumas vilãs passaram por debaixo da pele dela. Foi Sandrinha, a culpada pela explosão do shopping, em Torre de Babel, foi Nazaré na primeira fase de Senhora do Destino, mas foi também heroína em A Indomada e cômica em Toma Lá Dá Cá.

Carminha, como revelou o diretor de núcleo Ricardo Waddington, pedia uma atriz com carisma de heroína. Alguém que arranca a cabeça da boneca da enteada no primeiro capítulo tinha de cativar o público por algum outro fator, e Adriana ganhou a plateia de cara, mesmo com (ou talvez por isso mesmo) aquela atrocidade.

Passamos a esperar por suas caretas, algumas sutis, outras propositalmente agressivas, do sorriso à ira, em fração de segundos. Passamos a esperar pelas frases geniais ditas igualmente de modo genial, e a conferir o contraste entre a sensualidade do corpitcho exposto ao amante e a castidade da falsa mãe de família, tudo ao mesmo tempo, num só espaço. Coisas que a televisão, em seu ritmo industrial de quem tem mais interesse em vender sabonete do que em fazer arte, mal nos oferece no dia a dia. 

Não é coisa de novela, a redenção de Carminha.

Todo dia, na vida real, testemunhamos a transformação de bandidos, prostitutas e até psicopatas em devotos de Deus. Ou de comunistas e socialistas, adeptos da absoluta distribuição de renda, em defensores da legitimidade do lucro sem limites, como gente que nasce anarquista e morre carlista. 

Ir de um extremo a outro é verossímil, por que não seria?

E Carmen Lúcia não se torna um anjo de candura. Após matar o companheiro e amigo de infância, vem o surto, já sob os “cuidados” do pai mentor-malévolo. Ainda não sabíamos, àquela altura, que Carminha tão resignada era aquela, sob as ordens do tal Santiago, mas já era uma Carminha invertida. Veremos a resignação, a confissão do crime, a mulher que se diz “exausta” de uma vida de mentiras, entregue ao lixão, mas não à docilidade, repare. Ela ainda sabe como debochar de Lucinda, da vingança e da sina com a enteada e agora nora, mas sabe se emocionar com a visita do filho e do neto. Como é precioso cada gesto dessa Carmen Lúcia do avesso.Como a edição soube respeitar as pausas entre ela e Nina/Débora Falabella, e em plena televisão, onde tempo é sempre dinheiro.

Uma feliz conjunção entre texto, atuação e direção nos brindaram com essa estupenda personagem. E eu já não sabia se chorava por ver o destino da ex-senhora Tufão ou por pensar na longa trajetória de uma super atriz que soube se reinventar e se tornar a gigante que nos brindou por oito meses. 

Amém, Adriana,mil vezes amém!