Vem aí a geração que vai subverter o direito autoral

Estadão

17 Outubro 2012 | 12h00

Tatiana de Mello Dias – Link – Estadão.com

Quem cresceu entre os anos 80 e 90 perdeu algum tempo gravando coletâneas em fitas cassete – a forma pirata, e única, na época, de reunir em um só lugar nossos sons favoritos. A vida musical mudou radicalmente nos anos 2000. Com o Napster nós poderíamos ter qualquer música do mundo. A conexão era lenta, mas a possibilidade estava ali.

Depois disso foi tudo muito rápido. Todo mundo ficou encantado com as mudanças que o YouTube trouxe. Depois dele vieram inúmeros serviços de acesso à cultura, piratas ou não, no computador ou no celular. Tudo mudou.

As gerações que viveram isso, na qual me incluo, acham que o Napster foi a grande revolução na forma como consumimos cultura. Ele foi o estopim, mas a grande revolução ainda está em curso. E quem vai completá-la são as crianças de hoje. Nós somos apenas a transição, a geração que se deslumbra com a tecnologia, mas esbarra em regras e leis de um sistema que ainda não se adaptou.

As crianças de hoje não conhecem um mundo sem internet. Quando querem saber como uma planta carnívora come um inseto, vão ao YouTube pelo celular e têm a resposta imediata para a dúvida. Se ouvem uma música na rua e pensam “que legal”, em poucos minutos podem descobrir que som é aquele, encontrá-lo na internet e ouvir aquilo até matar a vontade. Para elas, não existe o mundo real e a internet. É tudo parte da mesma realidade, em que todo o conteúdo do mundo está acessível o tempo todo.

Quando essa geração que não viveu o mundo offline começar a esbarrar nas leis obsoletas impostas por indústrias e governos, essas regras se tornarão ainda mais ineficientes – ou completamente inúteis (e incompreensíveis). As crianças hoje podem criar um perfil no Facebook e criticar a escola, fazer um tutorial de maquiagem e postar no YouTube. Não apenas recebem a informação, mas se apropriam naturalmente de ferramentas de discurso. “É a alfabetização das nossas crianças”, diz Lawrence Lessig, advogado americano que criou as licenças Creative Commons, em uma palestra do TED em 2007.

Isso é, para ele, o “abolicionismo dos direitos autorais”. Lessig diz que essa é uma geração que “rejeita a noção básica de direito autoral e acredita que a lei não é nada mais do que uma chatice a ser ignorada e confrontada em qualquer oportunidade”. É uma posição extrema – incentivada por regras extremas. “Nós temos de reconhecer que eles são diferentes de nós. Nós fazíamos fitinhas; eles fazem remix. Nós assistíamos à TV; eles fazem TV”.

Quem nasceu no ano da palestra, 2007, já começa a comprovar a teoria – mesmo sem nem imaginar que existem algumas regras do mundo dos adultos que são burladas nas tarefas mais cotidianas na internet, como procurar uma música ou assistir a um vídeo no YouTube. Se algumas leis parecem sem sentido para a geração das fitas cassete, para as crianças de hoje elas serão, no máximo, uma lembrança dos pais ou uma citação na aula de história. Pode até ser engraçado.

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