Uma coletânea esdrúxula e distorcida marca os 45 anos do Genesis

Estadão

29 Outubro 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

No ano em que a banda inglesa de rock progressivo Genesis completa 45 anos de fundação, surge no mercado uma das coletâneas mais esquisitas já editadas no mercado fonográfico. “A Glimpse in the Night” é uma compilação composta pro apenas quatro temas, que nada mais são do que medleys reunindo algumas das mais importantes músicas da banda.

Os mais desavisados não vão entender nada. “The River of Constant Change”, por exemplo, tem quase 15 minutos e contém trechos de “The Cinema Show”, “Firth of Fifth” e “Fly on a Windshield”, além de “Squonk” e “Broadway Melody on 1974” na íntegra. Quem editou praticamente “criou” uma nova música ao associar canções que nada têm a ver entre si.

A faixa seguinte, “Over the Garden Wall”, embola ainda mais a situação. Inclui trechos de “Hairless Heart”, “Deep in the Motherlode”, “I Know What I Like”, outros pedaços de “The Cinema Show” e “Firth of Fifth” e termina com “Aisle of Plenty”. A mistureba mescla canções cantadas por Peter Gabriel e Phil Collins sem a menor cerimônia, transformando os medleys em autênticos monstros.

É o caso de “The Red Ochre Corridor”, que reúne trechos das obra-primas “Supper’s Ready”, “The Carpet Crawlers” e “Watcher in the Skies” com a interessante “Los Endos”, da época em que Collins era o cantor da banda, após a saída de Gabriel. Não faz sentido a associação em um mesmo medley, são canções distintas e de eras diferentes.

 

Os puristas detestaram a nova coletânea. Alguns críticos também torceram o nariz, mas não foram tão cáusticos. O problema é que o resultado geral, por incrível que pareça, não ficou ruim. É um CD bastante agradável de se ouvir – com tanta música excelente, não tem como dar errado.

Quem tem bastante intimidade com a obra da banda vai se divertir ao tentar identificar cada uma das músicas após as emendas e mudanças nem tão abruptas de músicas. Mesmo com o resultado até de certa forma interessante, o problema aqui é outro, é conceitual: qual a validade de se fazer essas misturas aparentemente sem o menor sentido, descaracterizando as canções originais e “criando” novas músicas? Qual o sentido disso?

Os medleys são bastante comuns em shows. Artistas de várias tendências costumam fazer, especialmente em festivais, quando o tempo de apresentação é bastante limitado. Paul McCartney, Rolling Stones e The Who tocaram medleys bastante interessantes quando de apresentaram no intervalo da final do campeonato de futebol americano – a NFL – na década passada.

Nada disso, entretanto, pode ser comparado à mutilação e à “frankensteinização” da obra do Geneis, picotando clássicos e os emendando a outros, aparentemente sem nenhum critério lírico ou melódico. É claro que houve um critério de quem editou o álbum, juntando músicas próximas pelo tema ou pela proximidade melódica, mas é óbvio que há algo de nebuloso na intenção de quem inventou esse projeto.

Será que é válido destrinchar, esquartejar e depois juntar trechos de músicas de forma aparentemente caótica? Será que é válido mutilar obras-primas como as já citadas?

É uma obra estranha, esquisita, e pode inaugurar uma perigosa tendência no mercado fonográfico. Para encerrar, a última “música”: “Walk Upon Stranger Roads”, que inclui trechos de “Ripples”, The Musical Box”, “Supper’s Ready”, “In That Quiet Earth” e Afteglow”.

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