Tame Impala, retrô e vibrante

Estadão

27 Outubro 2012 | 22h28

Roberto Nascimento

O maior trunfo de uma banda retrô é fazer música que vibre hoje e em uma era imaginada. Não há receita para a concretização de tal proeza. Centenas buscam os velhos tempos com obsessão religiosa, mas poucas acertam no equilíbrio entre arqueologia e contemporaneidade. O Tame Impala é uma notável exceção.

Em dois discos, a banda australiana conseguiu minar o batido universo da psicodelia sessentista –Beatles, Byrds, Jefferson Airplane – e produzir música de diretriz tão retrofílica quanto atual. Lonerism, lançado esta semana, é o atestado. Um mundo cósmico, de melodias alongadas, de sintetizadores antigos que tossem, espirram, borboleteiam e deslizam, é criado.

Os órgãos são desafinados, as baterias inquietas, as guitarras pesadas e caleidoscópicas. Kevin Parker, o vocalista, canta com uma voz que lembra Lennon.

Mas ao mesmo tempo em que todo esse arsenal vintage é usado, sem parcimônia, e com um sagaz ouvido para boas melodias, Lonerism tem o ‘feel’ de uma banda indie atual: um pouco da melancolia juvenil de Strokes, entre tantos, permeia o som, assim como a brisa refrescante do chillwave (ouça Toro Y Moi ou Washed Out, por exemplo).

Ouvir esses gestos sobrepostos é uma viagem quase lisérgica extremamente gratificante. Indica que o romance com o passado em que o pop atual vive não é inteiramente suscetível ao magnetismo histórico, e pode apontar um caminho para frente em que outras eras são tratadas mais objetivamente, sem saudosismo e admiração, e com mais vigor em seu assalto estético.

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