Safra boa de rock pesado – segunda parte: Andralls, Threat, Age of Artemis, Rygel…

Estadão

08 Outubro 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

A banda Andralls, mais um nome importante da cena paulistana, voltou em alta ao CD. O novo álbum, “Breadneck”, coroa uma fase extraordinária do grupo, que fez uma extensa turnê por 11 países europeus em 60 dias em 2012.

Com 14 anos de estrada, seis álbuns e diversas aberturas de shows internacionais, o Andralls refinou seu thrash metal, adicionando sonoridades modernas sem que haja perda de originalidade e peso.

Com disco novo nas lojas, o grupo não para e já emenda uma longa turnê pelo Nordeste, Norte e Sudeste do Brasil como aquecimento para uma série de shows a ser marcada para o ano que vem nos Estados Unidos, o que certamente será o passo mais ambicioso do grupo paulistano.

“Breackneck” é uma paulada, um thrash metal poderoso e com excelente trabalho de guitarras. As composições são certeiras, diretas, quase cruas, como o bom thrash oitentista deve ser. “Enemy Within”´arrebeta com os ouvidos, enquanto que as belas “Rising from the Shell” e “Eye for an Eye” trazem um instrumental primoroso.

O Threat finalmente lança o esperado “Overcome” após cinco anos do lançamento da estreia. É outro álbum poderoso, com elementos mais modernos de thrash metal. Instrumental coeso e bons solos de guitarra, a banda caprichou também na lista de convidados: Hugo Mariutti (ex-Angra, Shaman e atual Motorguts) no baixo, Kiko Loureiro (Angra) e Heros Trench (Korzus na guitarra). A produção de Alexandre Garcia é um dos destaques, correta, precisa e ressaltando as guitarras.

 

Um dos trabalhos mais esperados do ano era o do Scelerata, banda gaúcha extremamente técnica e que pratica um power metal mesclado com heavy tradicional. O nível do álbum “The Sniper”, a começar por uma grande surpresa: uma composição do alemão Andi Deris, vocalista do Helloween, que divide os vocais da faixa com Fábio Juan. Excelente canção, tem peso e melodia nas medidas certas.

“In My Blood” traz outra participação especial: Paul Di’Anno (ex-vocalista do Iron Maiden), que continua se dividindo entre Londres e São Paulo. Soberba, é algo tão pesado e benfeito que é superior ao que o vocalista gravou nos últimos dez anos.

Mais uma vez, o destaque aqui são as guitarras, bem trabalhadas e com um toque de mestre do produtor alemão Charlie Bauerfiend que já trabalhou “só” com Blind Guardian, Helloween, Gamma Ray, Motorhead e Halford, entre outros. O álbum todo é muito bom. Escute com atenção “Rising Sun” e “Unmasked Lies”.

Os santistas do Rygel não ficam atrás e cometeram um grande álbum também. Poucos grupos na atualidade conseguem misturar influências de forma tão equilibrada como thrash, death, prog metal e progressive death metal. O peso é brutal, com guitarras no talo e um baixo gordo e veloz.

Diante de tal violência, fica meio deslocada a balada “Memories”, benfeita e interessante, mas pouco inspirada. A porrada aqui é o que manda: “Perfect Stone”, “Asking for your Vote”, “Dammanation”, “Walking Dead”…

O Stormental optou por lançar um DVD, “Perception of the Other”, que é um trabalho magistral, já comentado aqui no Combate Rock. A união de heavy metal com dança resultou em um produto diferenciado, de alta qualidade e de extremo bom gosto. O áudio também foi lançado em CD.

As músicas ajudam, e muito, mas o trabalho coreográfico de Elke Siedler, líder da Siedler Cia. de Dança e codiretora artística do projeto (ao lado do vocalista Alexei Leão) é impressionante, com movimentos delicados alternando com momentos tensos, mas graciosos. A banda catarinense desde já é candidata a ter o seu trabalho incluído entre os melhroes do ano. Preste a atenção também no perfeito trabalho de iluminação.

Já o Age of Artemis caprichou na produção de “Overcome Limits”, a cargo de Edu Falaschi, vocalista do Almah e ex-membro do Angra. Não há exageros e o grupo usa a simplicidade como arma para manter a coesão do material, um power metal esbarrando no speed metal, com passagens progressivas que lembram bastante o Stratovarius.

Há momentos também em que surgem linhas melódicas de guitarra e teclados que remetem ao Angra e ao Symphony X, tudo muito bem executado e com bastante virtuosismo. Não há originalidade, o que não invalida uma audição com atenção.

“Bag of Scumbags” é um álbum interessante e difícil de classificar. A banda campineira Thriven faz um rock pesado na maioria das músicas, mas abusa, no bom sentido, de experimentações sonoras e musicais. São músicos excelentes, e de certa forma lembram um pouco o bom trabalho “Unpuzzle”, da banda Maestrick, de São José do Rio Preto.

É a estreia da banda, um tanto a arriscada, com trabalho que certamente vai causar estranheza na primeira audição. São muitas as referências e as influências, mas sem dúvida é um dos álbuns completamente diferentes que surgiram no rock pesado atual.

Vale a menção ainda a algumas bandas boas que optaram pelo português nas letras, como o ótimo metalcore do Paura e do Bioface.