Safra boa de rock pesado – primeira parte: Imagery, Psychotic Eyes e Slippery

Estadão

08 Outubro 2012 | 12h00

Marcelo Moreira

Um pacote pesado de heavy metal de qualidade surge neste semestre no interior de São Paulo, mostrando que de nada adiantam as lamúrias de artistas já com algum nome estabelecido a respeito da falta de público nos shows de bandas nacionais.

Essas bandas novas ignoram as condições longe do ideal e partem para a estrada com uma vontade raramente vista nos últimos 20 anos no Brasil. Seguem o exemplo de gente que rala muito e que mostra talento de sobra para conseguir o que grupos brasileiros estão obtendo, tanto nopaís como no exterior – casos de Shadowside, Torture Squad, Maestrick, Mindflow, Hellish War, Uganga, Carro Bomba e muitas outras.

O prog power metal do Imagery é uma das gratas surpresas deste pacote, e a banda desde já é candidata a entrar no seleto clube descrito acima. Músicas fortes, pegada pesada e boas sacadas em termos de produção tornam o álbum de estreia, “The Inner Journey”. A timbragem da guitarra é perfeita, tornando o som coeso e muito bem articulado.

A introdução instrumental, “Fourth Secret”, é um belo cartão de visitas, apresentando o virtuosismo e o bom gosto dos arranjos e a técnica dos músicos. O que vem a seguir é uma sequência muito interessante do mais puro prog metal na linha Dream Theater, com as guitarras falando mais alto, com um som mais “gordo”.

“Imagery”, “Perception” e “Start the War” tiram o fôlego, com as passagens mais densas e climáticas acrescentando elementos sonoros diferentes e inflências tão distintas quando Rush, Genesis, o próprio Dream Theater, Fates Warning e até Queensryche. Ou seja, referências ótimas não faltam ao ótimo grupo de Londrina (PR).

  Imagem

Mesmo com todo o apuro técnico dos integrantes, o destaque vai para Jocier Bertoni, guitarrista e vocalista. Com execução precisa e solos inspirados, conduz o Imagery de forma segura, além de dar o peso necessário ao metal progressivo sem excessos. Ouça também “The Rain”, uma faixa que é a amis pura essência do som bem elaborado e pesado que tem caracterizado as bandas brasileiras do gênero.

Já os furiosos integrantes do Psychotic Eyes não fazem questão de mostrar qualquer elegância. Nem resquício disso passa perto da paulada “I Only Smile Behind the Mask”, que ganhou força neste ano nas lojas por conta das insanas apresentações do grupo pelo estado de São Paulo – o lançamento é do finalzinho do ano passado e foi disponibilizado somente pela internet, ficando o download gratuito por muito tempo no site da banda.

Os mais de dez anos de batalha finalmente deram um resultado ótimo para a banda meio paulistana meio guarulhense. Metal de primeira, com riffs pesados e velozes, vocal potente e furioso. Metalcore, death ou thrash metal? Tanto faz, o som é marcante, pesado, volumoso e intenso. É música extrema da melhor qualidade.

A violência sonora não é suficiente para esconder o apuro musical do grupo. Em muitas passagens, predomina o que se convencionou chamar de death metal melódico ou progressive death metal – será que isso é possível? Caos e barbárie em prefeita consonãncia o o barulho infernal que não deixa nada de pé.

São apenas sete músicas, mas que tiram a respiração do ouvinte diante de tanta urgência e pancadaria. Há grandes momentos na faixa-título e principalmente no dueto que abre o trabalho, “Throwing into Chaos” e “Welcome Fatality”. O Torture Squad e o Korzus ganharam um concorrente de peso.  

 
 Em outro extremo, quando alguém diz que toca em uma banda de hard rock no Brasil, logo a imagem que se forma é a Sunset Strip, local em Los Angeles que foi o celeiro das bandas mais exageradas e produzidas do subgênero do rock.
 
 Não dá para ser diferente, já que a maioria das que optam pelo hard rock no Brasil invariavelmente caem na praia de bandas como Motley Crue, Poison, Ratt, Winger e Cinderella, entre outras. Por isso é uma boa notícia quando vemos um trabalho em outra direção, como é o caso da banda de Campinas Slippery.
 
O modelo de inspiração aqui é a vanda canadense Triumph, um dos excelentes grupos dos anos 70 que faziam um rock mais pesado – embora aqui e ali seja possível identificar ecos e sonoridades típicas das bandas californianas oitentistas. Guitarras poderosas, músicas bem feitas e um astral para cima garantem a diversão do ouvinte.
 
Não é nada do outro mundo, e não espere hits atrás de hits.  Entretanto, é um trabalho honesto e executado por músicos exímios em seus instrumentos. O vocal de Fabiano Drudi é potente e rasgado, mas à primeira audição parece deslocado, mas é mera impressão. Seu timbre ora lembra Spike, dos Quireboys, ora o de Don Dokken.
 
 Entre os destaques estão as músicas “Follow Your Dreams”, “Two Young Hearts” e “The First Blow”. Outro ponto que chama a atenção em First Blow é a inclusão de um cover para “Night Of The Demon” da banda britânica Demon, uma das representantes do movimento “New Wave Of Britsh Heavy Metal”.
 
 É um trabalho interessante e convincente, com uma ressalva: o vocal parece levemente mais baixo do que o instrumental em várias passagens, mas nada que incomode a ponto de desqualificar a obra.  
 
 

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