Robert Plant passou bem longe de Led Zeppelin

Estadão

24 Outubro 2012 | 06h49

JULIO MARIA

Se pudesse mesmo, Robert Anthony Plant colocaria o passado em um saco plástico, amarraria suas pontas em uma âncora e o jogaria no leito de um rio. Não que o renegue, longe disso, mas sente por ele a mais irremediável repulsa quando se vê ajoelhado a seus pés, como um escravo diante do senhor.

Se pudesse de verdade, Plant faria a ele não mais do que uma ou duas visitas por ano e mandaria um cartão de Natal. Seria melhor assim, um lá, o outro cá. Mas não. Isso só seria possível se Robert Plant fosse mais forte do que um gigante de quatro cabeças chamado Led Zeppelin.

O que se viu no palco do Espaço das Américas, na noite de segunda-feira, foi a coragem de um senhor de 64 anos desafiando 8 mil leões. Para certa frustração de boa parte dos fãs que lotavam a casa, Plant quer ser Plant, e não o líder de uma banda cover.

Mas a conquista da liberdade dos dinossauros é um caminho ingrato. Quando os olhos e os ouvidos de suas plateias esperam anos para degustar do biscoito mais fino produzido pelo rock dos anos 70 – e seus bolsos pagam até R$ 400 para isso – é difícil pedir licença e convencê-las de que Plant e seu novo grupo, o Sensational Space Shifters, trazem algo inspirado “pela música de raiz do Mississipi, Appalachia, Gâmbia, Bristol e pelas colinas de Wolverhampton”, como explicou seu guitarrista, Justin Adams, há um ano.

 A pesquisa é benfeita e o repertório sólido e respeitável, mas a impaciência é involuntária e, na hora do vamos ver, ela fala mais alto. “Ok, bacana, mas quando ele vai tocar Rock and Roll mesmo?”

Quando os ouvidos rastreiam bem, encontram partículas do Led Zeppelin presentes o tempo todo, mesmo nos barulhinhos estranhos. Em sua nova viagem, depois de se juntar a músicos do Sul dos EUA para fazer uma temporada de rock country que incluiu shows, disco e DVD com a Band Of Joy, Plant foi sobretudo à África e ao Oriente Médio para construir um rock de clima árabe e um afroblues que seguisse o código genético de sua ex-banda sem lhe jurar fidelidade.

 

Plant em ação no show de São Paulo (JF DIORIO / AE)

Sangue nos olhos

Plant sabe que os jovens de 30 anos ou mais espremidos à sua frente aplaudem cada uma de suas novas ousadias com generosidade, mas querem mesmo é ouvir Led Zeppelin. Ele parece brincar com o conservadorismo paradoxal de um público que deveria ser o mais liberal de todos se seguisse os fundamentos do próprio rock and roll.

Ele enfileira canções desconhecidas por quase uma hora de show. Sabe que depois de qualquer menção ao Led, nada na noite será como antes. Pois então, depois da lisérgica e exigente Another Tribe, passa a distribuir os doces que guardou tanto tempo com Friends.

A plateia o mastiga aos poucos, engole com certa dificuldade e pede mais. “Obrigado, São Paulo”, ele diz. Faz então uma quase irreconhecível versão de Spoonful, de Howlin’ Wolf, e joga com Black Dog para logo finalizar com Whole Lotta Love. Sua volta é feita com o único momento em que as resistências são diminuídas, uma comovente Going to California.

 E o fim resume a ópera: Rock and Roll, a versão mais próxima à original, pungente no peito e com sangue nos olhos, faz a plateia e o próprio Plant se divertirem como adolescentes. Era só aquilo que todo mundo queria o tempo todo.

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