Revigorado, Kiss acerta ao revisitar os anos 70 em 'Monster'

Estadão

07 Outubro 2012 | 22h30

Marcelo Moreira

O álbum “Psycho Circus”, de 1998, mostrou um Kiss no piloto automático, quase que na obrigação de ter de gravar um álbum com inéditas com a formação original – implodida pela segunda vez algum tempo depois. Três boas músicas e nada mais. Demorou 11 anos para novo álbum, “Sonic Boom”, mais empolgado, mas com pouca inspiração, já que não produziu nenhum hit – culpa talvez dos excessos da produção megalomaníaca.

“Monster” é apenas o terceiro álbum do Kiss em 14 anos. Previsto para ser lançado ainda em outubro, representa um sopro de esperança para uma banda prestes a completar 40 anos de existência. Os exageros característicos dos farofentos anos 80, que ainda estavam presentes em “Sonic Boom”, só que em escala bem menor, foram substituídos por uma bem-vinda simplicidade.

Finalmente o quarteto admitiu: para surpreender os fãs, não era preciso inventar, nem mesmo se reinventar. Bastava olhar para a vizinhança, detectar a mesmice e a falta de ideias, e depois olhar para um passado remoto. Adicione timbres mais modernos de guitarra e está feito um interessante álbum de hard rock.

A opção de deixar o climão setentista dominar “Monster” foi uma decisão acertada. Nem o mais fervoroso fã imaginaria que Gene Simmons (baixo e vocais) e Paul Stanley (guitarra e vocais) se interessariam novamente por uma sonoridade que remete, ainda que parcialmente, aos clássicos “Destroyer”, “Rock’n’Roll Over” e “Love Gun”, gravados entre 1976 e 1977.

Sumiram todos os indícios de obrigatoriedade de gravar algo novo. Pode até ser uma coisa fingida, mas as músicas novas transbordam um astral positivo e mais alegre, são cativantes e, despidas de arranjos pomposos e desnecessários, levam ao Kiss de volta ao terreno do rock’n’roll básico e sem muitas firulas.

Não há nada de memorável em “Monster”. A inspiração foi a sonoridade dos clássicos setentistas da banda – repito, uma decisão acertada –, com resultado positivo e interessante, mas apenas isso.

Assim como em “Sonic Boom”, não há um grande hit, nenhuma música com potencial para se tornar um clássico da banda. No entanto, como um todo, o novo álbum é mais coeso e melhor do que o anterior. A coleção de músicas tem mais qualidade – tocar e gravar com vontade, com bom astral, faz toda a diferença.

“Hell or Hallellujah” foi a primeira faixa ser divulgada na internet. Ainda traz alguns resquícios de uma produção mais esmerada e com acessórios, mas já indicava que o caminho da simplicidade seria trilhado. Mantém as características de um rock de arena próprio para abrir o álbum.

A sequência é uma trinca de levantar estádios, com guitarras na cara e com timbres setentistas deliciosos: “Wall of Sound”, “Freak” e “Back to Stone Age”. “Shout Mercy” é mais pesada, com um ritmo frenético à la AC/DC, com riffs bem construídos de guitarra e baixo.

“Long Way Down” é uma rara pisada na bola. Não porque a música seja ruim – não é. O problema é que claramente uma chupação do clássico dos Yardbirds “Shapes of Things”. A semelhança é tão clara que ouvi-la torna-se um constrangimento.

As demais músicas mostram um nível bastante parecido, de boa qualidade e com doses extras de animação, com destaque para outro rock de arena, um pouco mais pesado e rápido, mas contagiante, “All for the Love of Rock & Roll”, cantada pelo baterista Eric Singer.

E a maior de todas as surpresas: cadê a indefectível balada? quase todos os álbuns do Kiss contêm pelo menos uma… e “Monster” quebra a escrita. Não resta dúvidas de que é um álbum diferente. Traz o Kiss revigorado e com vontade, produzindo um trabalho muito bom.

Assim como o Van Halen no começo do ano, com “A Difficult Kind of Truth”, o quarteto mascarado voltou para marcar terreno e mostrar que, sem ser brilhante ou genial, ainda é capaz de varrer 90% do rock insosso e insípido produzido neste século XXI.

Lista de músicas

  1. Hell or Hallelujah
  2. Wall of Sound
  3. Freak
  4. Back to the Stone Age
  5. Shout Mercy
  6. Long Way Down
  7. Eat Your Heart Out
  8. The Devil is Me
  9. Outta This World
  10. All for the Love of Rock & Roll
  11. Take Me Down Below
  12. Last Chance

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