Rápidos comentários sobre o mercado da música no Brasil

Estadão

23 Outubro 2012 | 06h49

Henrique Papatella – músico da banda Scarcéus

Minha opinião talvez seja irrelevante! Se eu soubesse exatamente o que fazer para alcançar o ‘topo’ quem lá estaria seríamos NÓS e não ELES … Mas o que vou dizer é o que vivencio hoje e o que vivi nesses vários anos de luta lidando com música diuturnamente.

Quase todos os dias sou interpelado em redes sociais por pessoas querendo me apresentar músicas, me pedindo opiniões sobre trabalhos artísticos, sugestões, etc … Fico orgulhoso, procuro ouvir tudo, conversar com a galera, mas reitero: Pouco posso fazer! Se soubesse a ‘fórmula’ já a teria usado em benefício próprio! Hoje presencio o caos no mercado musical e honestamente não tenho a menor ideia de como isso possa mudar efetivamente. Há alguns anos li uma entrevista do Humberto Gessinger sobre esse tema. Ele dizia à quem estava começando a se lançar na música no Brasil para rever suas expectativas e não esperar muito desse meio … Nas entrelinhas entendi que ele sugeria levar a coisa meio como hobby e o que viesse seria lucro! Na ocasião achei que aquilo era recalque de quem já não frequentava a mídia como em outras épocas mas hoje admito que ele estava com a razão. Atualmente eu afirmo que a coisa está pior ainda, aliás, bem pior… No fundo, quem sabe até onde podemos ir somos nós mesmos! Não existe ninguém capaz de nos demover de um sonho, de algo que sabemos que está vivo dentro de nós e que só você pressente que é possível. É essa a sensação que te sustenta através dos anos e você não tem muito mais que isso para se apegar… Quem acha que pode ‘chegar lá’ e não desistiu sabe o que estou dizendo! Mas a realidade é dura, muito dura…

Dia desses, um jovem guitarrista me perguntou insistentemente o que deveria fazer para que sua banda conseguisse mais demanda e eu, num momento complicado e de modo abrupto, disse algo duro de se ouvir: ‘Venda sua guitarra e vá fazer outra coisa’… Espero que ele não tenha me levado a sério! Senão a coisa morre de vez … Cada um tem que saber até onde pode ir e não cabe à mim opinar nessa questão … Efetivamente, não há muito o quê se fazer na atual circunstância. Vivemos à espera de milagres e eles às vezes batem à nossa porta quando menos esperamos. E isso acontece de vez em quando, lhes asseguro! Existem momentos mágicos que tudo sai da sua mão e parece obedecer à uma lógica invisível e inexplicável… Devemos estar preparados! Mas, via de regra, é o trabalho, o suor, a garra e as vezes o talento, que realmente fazem a diferença. Para quem, ainda assim, quer o meu ‘conselho’, digo: Busque, não espere! Trabalhe, não se iluda! Persista, não pare um minuto sequer! Quem sabe?!

AS ENGRENAGENS DO MAL

O meio artístico, assim como o futebolístico e o político, é um antro de picaretagem sem fim. Bom seria se o que importasse fosse apenas a arte em si mas esse desejo é de uma ingenuidade letal. A maioria absoluta das pessoas envolvidas nesse meio já foram contaminadas pelo veneno que parece ser a característica natural de ambientes onde o poder, os egos e o dinheiro são fatores proeminentes. Boas pessoas são minoria mas também existem e quando elas cruzarem sua trajetória, guarde-as! Considere isso um prêmio, uma benção e jamais se afaste delas. São elas que propiciam as grandes viradas de jogo! Essas boas almas não são tão apegadas à questões rasteiras como a maioria é … Tem um momento em que você não consegue mais seguir em frente por seus próprios meios e se nesse instante alguém ‘do bem’ resolver te estender a mão, considere-se uma pessoa de sorte! Nessas horas o invisível atua … Amigo é a palavra que você mais ouve mas amizade é o que você menos vê. Portanto, se você conseguir construir relações leais e elevadas, seu fardo será um pouco mais leve.

Antigamente quem alimentava o mercado da música eram as gravadoras. Não eram (e não são) nada ‘santas’ mas ali existiam diretores artísticos comprometidos sim com a possibilidade de um bom retorno financeiro para a empresa mas também com um nome ‘artístico’ à zelar… Ou seja, o camarada não colocava qualquer porcaria para tocar no rádio pois ele queria manter o status de descobridor de talentos reais que propiciariam lucros para a empresa e ainda mais credibilidade para ele mesmo e para as ações comerciais e estratégicas das gravadoras. Não podemos esquecer que isso é um negócio como outro qualquer e todos tem que pagar suas contas. Não é esse o problema! O meio musical não é e nunca foi nada filantrópico e nem tem que ser… Mas quem reclamava da época em que as gravadoras gerenciavam o esquema musical brasileiro hoje deve estar tão assustado quanto eu!

Após a ‘falência’ das gravadoras nacionais e multinacionais pelo motivos sabidos (pirataria,caos virtual,queda vertiginosa nas vendas de CDs,etc) e pelos motivos ‘ignorados’ (gestão incompetente e fanfarrista, preguiça em descobrir novas estratégias comerciais, acomodação executiva,etc) surgiu uma enorme lacuna nesse mercado. Alguém tinha que preenche-la … Eis que surgem os ‘empresários’!

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