Qual é a música do Brasil?

Estadão

26 Outubro 2012 | 07h02

Henrique Papatella – músico da banda Scarcéus

Do ano de 2005 (talvez um pouco antes) até hoje, com as gravadoras falidas e os canais midiáticos do mercado musical sem as mamatas dos tempos das ‘vacas gordas’, surgem avassaladoramente os grandes escritórios e empresários do SEGMENTO POPULAR para ‘adotar’ esse dito mercado da música no Brasil!
 
O Brasil, inegavelmente, evoluiu social e economicamente na última década, o que fez com que a histórica diferença entre ricos e pobres fosse atenuada. O que é louvável! De maneira resumida, se excluirmos 10% da população brasileira ‘rica’ (que vive uma realidade quase paralela, com outros anseios e oportunidades…) e 10% da população brasileira ‘pobre’ (cujo foco, infelizmente, se resume em sobreviver…) temos um público de 160 milhões de pessoas se ‘esbarrando’ por aí… Consumindo mais ou menos as mesmas coisas, indo a lugares que se equiparam, com expectativas semelhantes… Essa massificação tornou o Brasil mais homogêneo, mas fez com que o nível médio cultural geral diminuísse justamente numa época em que estilos até então ignorados pela classe média se tornassem a última MODA. Essa oportunidade não passou em branco para empresários e artistas ‘populares’ que, com uma estratégia agressiva e competente, conquistaram o coração e a mente da maioria absoluta da população brasileira.
 
Quem hoje for aos shows de primeira linha da música sertaneja, do axé, do pagode, do forró, assistirá a eventos de produção de nível internacional! Antigamente a qualidade ‘estrutural’ era premissa dos eventos de rock! Atualmente não. Gostem ou não, o segmento popular é hoje quem dá as cartas nesse business.
 
Não adianta empunhar a guitarra com rancor e berrar ao microfone em shows de quermesse para meia dúzia de pessoas que ‘o rock´n roll é que é inteligente’ e quem sobrou é idiota. MENTIRA! Quem frequenta essas ‘festas populares’ atualmente são engenheiros, médicos, juízes, dentistas, formadores de opinião, os próprios artistas… As pessoas, de modo geral, querem se divertir, entreter-se! Hoje em dia, essas respeitáveis pessoas (não estou sendo irônico), após ‘tomarem algumas’, dançam o tal do ‘arrocha’ (um subgênero do forró misturado ao ‘tecnobrega’) sem o menor constrangimento. De certa forma, o Brasil se assumiu popular.
 
O Brasil, por sua pluralidade racial e cultural, merece SIM ser mais democrático musicalmente, pois nosso povo está propenso a gostar de qualquer coisa. Não apenas no sentido negativo de ‘qualquer coisa’, mas no fato de não ter preconceito em conhecer novas propostas musicais e artísticas. Mas isso tem que chegar ao público, senão… Quem se arrisca a dizer qual seria O SOM genuinamente brasileiro? Ou alguém acha que o país que gerou ‘A Jovem Guarda’ do Roberto Carlos, Raul Seixas, Os Mutantes, Renato Russo e sua ‘Legião Urbana’, Cazuza, Sepultura, Nação Zumbi, O Rappa e tantos outros grandes talentos dessa vertente musical, não pode ser considerado também o país do POP, do rock…
 
Nenhum estilo musical é superior ideológica e artisticamente a outro! O que existem são preferências! Mas preferências podem ser incitadas… Através da educação, da cultura, da diversidade, da MÍDIA…
 
Talvez seja um exagero cobrar uma postura cultural mais inteligente de uma população que sempre viveu à margem num país que nunca se importou muito com os seus… Mesmo não querendo, a gente acaba falando de política. O ‘gosto’ da massa, por vezes sábio, às vezes duvidoso, é a vingança contra quem sempre lhe virou às costas.
 
O mercado musical muda de tempos em tempos, mas não devemos esperar mudanças drásticas. Estamos quase à espera de um milagre…