'Quadrophenia' empurra o Who para mais uma turnê

Estadão

02 Outubro 2012 | 06h53

Marcelo Moreira

Jimmy vai ressurgir das profundezas do mar de Brighton pela segunda vez em 40 anos. A promessa foi feita pela dupla Pete Townshend e Roger Daltrey neste segundo semestre, quando anunciaram mais uma turnê norte-americana da banda The Who.

A banda vai comemorar em 2013 os 40 anos do lançamento da obra-prima “Quadrophenia”, mesmo com a turnê começando em novembro próximo. Serão três meses atravessando o Estados Unidos e o Canadá, em um comodismo irritante para os fãs de outras partes do mundo. O mercado da América do Norte é prioridade absoluta e quase única da dupla que responde pela banda.

Será a última turnê da banda? Os dois evitaram responder em recente entrevista em setembro ao jornal norte-americano The New York Times. No ano passado, durante uma turnê solo norte-americana (para variar) executando na íntegra a ópera-rock “Tommy”, Daltrey deu pistas de que estava finalmente conseguindo convencer o companheiro a realizar “uma turnê pela última vez”.

“É algo que não pensamos e não conversamos. Procuramos algo que pudéssemos fazer juntos. Tivemos dificuldade em encontrar algo legal, mas estávamos ansiosos para voltar a trabalhar lado a lado – antes que a gente morra”, tentou desconversar, mas escorregando, o guitarrista Townshend.

Cinco anos após a última turnê completa pelos Estados Unidos e Europa, Os quase setentões do Who vão executar na íntegra a ópera-rock “Quadrophenia” pela segunda vez – a primeira foi na turnê entre 1996 e 1997. Será um desafio para o vocalista Daltrey. “As músicas de ‘Quadrophenia’ são difíceis e que gostaria de voltar a cantá-las enquanto sua voz ainda der conta. Eu não sei por quantos anos ainda serei capaz de cantar essas músicas. Minha voz está ótima no momento.”

Daltrey (esq.) e Townshend no palco durante a turnê norte-americana de 2004

A saga do mod Jimmy na turbulenta e violenta Londres de 1965 vai exigir muito não só da dupla, mas de toda a banda de apoio. Gravado com o que de mais moderno existia em equipamento em 1973, e cheia de efeitos especiais, “Quadrophenia” sempre foi considerada uma obra irreprodutível ao vivo, embora a banda tenha tentado na turnê norte-americana de 1973, com resultados insatisfatórios.

“Os efeitos pré-gravados em fitas cassete e de rolo eram um desafio para todos nós na época. Às vezes os sequenciadores não disparavam as fitas, o que nos fazia perder o tempo das músicas. Outras vezes ficava impossível acompanhar os arranjos, e atravessávamos o ritmo mesmo, principalmente Keith (Moon, o baterista). Foi um pesadelo”, relembrou Townshend à edição norte-americana Rolling Stone às vésperas dos shows de 1996 – um deles, magistral, ocorreu no Hyde Park, com David Gilmour (Pink Floyd), como convidado especial.

Ambientada na época da juventude mod, na Inglaterra, por volta de 1964 e 1965, a ópera conta a história de Jimmy, que enfrenta um transtorno de personalidade “quadrofônica” e vive à procura de uma identidade. Virou filme em 1979, estrelado por Sting, baixista do The Police. A aceitação foi boa na época e em 2010 foi reeditado em DVD e Blu-Ray.

Ainda na recente entrevista ao The New York Times, Townshend consegue ver semelhanças entre os tempos atuais com 1973, quando lançou a obra, e1965. “Acho que ‘Quadrophenia’ ainda é atual, tem correspondência com a nossa realidade. Ela fala sobre um jovem que não consegue se adaptar. Agora que todos se comunicam por mensagem de texto, e-mails, Facebook e todas as outras mídias sociais, uma das dificuldades é que, se as pessoas estiverem em uma situação em que não possam ser sinceras consigo mesmas, será muito difícil crescer, amadurecer e seguir em frente.”

O repórter norte-americano tentou, mas não furou o bloqueio sobre ser esta a última turnê da banda, que completou 50 anos do embrião de sua criação em 2012. Os dois músicos evitam falar do futuro, e rechaçam qualquer comparação com os amigos Rolling Stones. “Futuro para mim são os três meses longos de turnê pela América”, brincou Daltrey. “Para mim é o lançamento da minha autobiografia em breve e mais alguma coisa”, emendou Townshend, encerrando a conversa.

O guitarrista lança em outubro na Inglaterra “Who Am I?”, que promete ser tão polêmico quanto as biografias de Eric Clapton e Keith Richards. A vantagem é que Townshend reconhecidamente escreve bem e não precisou de ajuda de um jornalista ou ghost writer (profissional que escreve para o “autor” de fato).

A nova ópera-rock que Townshend está compondo, “Floss”, que tem chances de se tornar um novo álbum do Who, por enquanto está engavetada até meados de 2013.

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