Público despreparado e desinformado constrange no show de Robert Plant

Estadão

24 Outubro 2012 | 11h20

Marcelo Moreira

Quando o Deep Purple anunciou em 1999 que faria um show comemorativo aos 30 anos do lançamento do maravilhoso álbum “Concert for Group and Orchestra”, houve uma corrida mundial para o que então seria o único evento, em Londres, no mesmo Royal Albert Hall. Alguns brasileiros conseguiram ingressos e assistiram à apresentação.

Pouco depois, o sonho: a banda anunciou uma turnê mundial de comemoração, tocando com orquestras locais devidamente orientadas pelo maestro Paul Mann. Os shows em São Paulo ocorreram em três datas em setembro de 2000 no Via Funchal, com o acompanhamento da Orquestra Jazz Sinfônica. Os três shows foram fantásticos.

Entretanto, parte do público paulista se comportou mal, seja por idiotice, seja por falta de informação (o que não justifica a idiotice). Por se tratar de um evento com pelo menos metade do evento dedicado a um concerto de música erudita, era evidente que o silêncio era necessário.

O público, acomodado em mesas na pista, tinha visão total do palco. Só que muitos mal-educados começaram a gritar durante a primeira metade do show – que consistia no Concerto para Grupo e Orquestra – que queriam rock, heavy metal e o nome dos grandes sucessos do grupo.

O constrangimento nas duas primeiras noites foi geral, sendo necessária a intervenção de seguranças para advertir os mal-educados – alguns foram retirados a força, com toda a razão. Alguns dos imbecis acabaram sendo agredidos pelo público que tentava assistir ao show.

Imbecilidade pura e simples ou analfabetismo crônico, de gente que não faz a mínima questão de se informar, de ler um jornal ou ver um noticiário decente na TV?

Nada tão grave e gritante ocorreu no primeiro show de Robert Plant no espaço das Américas, em São Paulo, nesta semana. Parcela expressiva dos quase 8 mil fãs que lotaram o lugar curtiu bastante a apresentação do ex-vocalista do Led Zeppelin. Também não houve vaias. Mas houve certo “desconforto” de alguns espectadores em relação ao que foi apresentado.

Robert Plant (FOTO: JF DIORIO / AE)

Alguns veículos de comunicação não economizaram ao descrever a “decepção de parte do público.
“Cadê a voz do cara?”, perguntou um desavisado – e desinformado –, em depoimento a um grande portal de internet. “Quero Led”, gritou outro perdido no show, incapaz de perceber que uma antiga canção do grupo estava sendo executada, só que com arranjos um pouco diferentes.

Mais gente deu depoimentos revelando decepção com a “falta de peso”, com as “músicas esquisitas” (referindo-se aos arranjos orientais e folk que compõem o trabalho solo de Plant atualmente) e com a maneira “chata de cantar”. Em pelo menos cinco locais de lanche próximos ao Espaço das Américas esse era o tema que dominava as conversas.

Qual a dificuldade de se informar sobre o evento para o qual se pagou caro por um ingresso? O que leva alguém a comprar um ingresso e achar que vai ouvir o Led Zeppelin perfeito e cristalino em um show de Robert Plant?

Faz parte de todo evento grande ocorrer esse tipo de depoimento. Houve gente que reclamou muito de Paul McCartney em sua última passagem por São Paulo, alegando que ele não tinha mais voz e que tinha transformado as músicas dos Beatles em “pastiches”. Por incrível que pareça, houve quem vomitasse tais heresias. E isso já aconteceu no Brasil também com AC/DC, Rush, Kiss e até mesmo com os Rolling Stones!

Por mais que faça parte de eventos como esse e que não se trate de algo fora do normal, é chato presenciar o despreparo de parte do público para encarar um evento com um mito no palco, alguém que é um dos grandes vocalistas da história.

Uma mera passagem pelo YouTube seria suficiente para verificar a quantas anda a carreira de Plant aos 64 anos – e que já tinha mostrado em São Paulo em 1996, quando veio ao lado de Jimmy Page, que sua voz tinha limitações, mas ainda assim fazendo um show excelente.

É claro que o espectador não precisa ser um especialista um fanático pelo artista. É bem provável que uma parcela expressiva do público que frequenta shows desse tipo ou megashows tem apenas uma vaga ideia da obra do artista e que não consiga dizer o nome de uma única música.

Só que não dá para não constatar: reclamar da “falta de peso”, da voz atual de Plant e da “falta de músicas do Led”, quando elas foram tocadas e alguns não as reconheceram é um atestado de desinformação total, para não dizer outra coisa. E não dá para deixar passar batido esse tipo de coisa: custa ler três parágrafos de um texto de jornal ou de site? Custa acessar o YouTube de seu smartphone  caro e aparentemente inútil?

Mais conteúdo sobre:

Deep PurpleLed ZeppelinRobert Plant