Para de fã brasileiro de rock pesado, bandas nacionais de metal são 'de boteco'

Estadão

17 Outubro 2012 | 06h39

Marcelo Moreira

O público brasileiro de que frequenta shows de internacionais de rock pesado despreza o heavy metal nacional, quando não o desconhece totalmente. A afirmação não é surpreendente, mas joga luz a um assunto que divide os apreciadores do gênero no Brasil e provoca a ira de músicos nacionais que se irritam com shows lotados com ingresso mais barato a R$ 200 e, ao mesmo tempo, tocam em bares pequenos e vazios em troca de ingressos a R$ 15 ou a 20.

Miguel Luís “Mike” Souza é um recém-formado em Ciências Sociais e fascinado por estatísticas e pesquisas de mercado. Temporariamente afastado de sua guitarra, já que sua banda de heavy metal, o Narkoze, está na UTI – ele diz que está hibernando, mas não admite que já acabou –, decidiu fazer um levantamento empírico (uma enquete, na verdade) em dois grandes shows na cidade de São Paulo.

Gastou tempo e paciência para fazer perguntas a 600 pessoas nos shows do Megadeth e do Linkin Park, antes das apresentações, tendo como o tema o heavy metal nacional. Entre as perguntas que fez estavam se conheciam alguma banda nacional heavy metal – não importando se cantando em inglês ou português, se gostavam de bandas brasileiras e se frequentavam shows dessas bandas. O resultado já era esperado, mas triste.

Não vou espalhar números aqui neste texto para que este não fique quilométrico. Cerca de 20% dos consultados diz saber da existência de um “metal nacional”, mas só 8% conheciam alguma banda brasileira de heavy metal fora o Sepultura. Só 6% disseram gostar de bandas brasileiras de metal e 6% disseram ter ido recentemente a um show de banda nacional. Também ficou em 6% o total de respostas sobre se “costumavam frequentar shows de bandas brasileiras de metal”.

Souza reconhece que as bases da pesquisa são frágeis, com poucos fundamentos técnicos possíveis de serem aplicados – por isso mesmo ele trata apenas como uma enquete. Quando possível, ele tentou entrevistar pessoas de ambos o sexos, com idade aparente entre 16 e 35 anos.

Edu Falaschi em show do Almah em Brasília, no mês de setembro

“Fiz algumas anotações e tentei organizar de alguma forma, mas claro que a base científica fica prejudicada. Mas dá para tirar algumas informações que poderão servir de início a discussões. Ponto 1: aparentemente são públicos distintos, ou seja, quem vai a show de grande artista internacional não gosta, despreza ou desconhece o metal nacional. Ponto 2: parte das pessoas que disseram conhecer alguma banda nacional disse que não gosta destas porque não passam na verdade de ‘bandas de boteco’, ou seja, têm uma ideia deformada de que são bandas de fundo de quintal, e nem a informação de que tais bandas gravam bons CDs foi suficiente para demovê-los de que não passam de bandas de ‘fundo de quintal’”, diz Souza.

Justamente por ser a base científica do levantamento bastante precária é que não é o caso de se aprofundar nos números. No máximo serve de ponto de partida para um debate mais amplo e mais profundo. O músico que reclama que o roqueiro se recusa a pagar R$ 15 para ver sua banda, mas aceita pagar os exorbitantes R$ 200 para ver um grande grupo internacional está a anos -luz deste público – está divorciado desta realidade.

Para piorar, esse mesmo músico desconhece informações básicas sobre o seu próprio público e mais ainda sobre quem vai a shows internacionais. É possível deduzir que o músico em questão divulga errado seu produto e mira errado os alvos para ampliar seu público.

E aí vem a pergunta: diante de um quadro como esse, e excetuando-se nomes internacionais como Angra, Shaman, Andre Matos e Krisiun, qual é o segredo de grupos como Dr. Sin, Korzus, Torture Squad, Hangar e outros do mesmo patamar que conseguem manter um público fiel, lotar casas de pequeno e médio portes em vários locais do Brasil e vender uma quantidade ainda razoável de CDs?

É um trabalho inglório enfrentar preconceitos históricos e arraigados. Quem gosta de heavy metal nacional costuma apoiar a a assistir com regularidade os shows. Quem apenas fica esperando os artistas internacionais tem uma ideia formada: heavy metal nacional é Sepultura e Angra, o resto é banda de boteco.

Ou seja, esse pessoal, a maioria, não vê qualidade nas bandas brasileiras – seja cantando em português ou inglês – e não tem disposição alguma de conhecer melhor o trabalho de tais bandas, muito menos de gastar dinheiro com CDs ou shows, por mais baratos que sejam.

Como reverter esse quadro? Esperar que a grande inprensa abra espaços generosos é inútil, as demandas são outras, assim como as linhas editoriais são distintas e quase sempre rígidas. As mídias segmentadas são espefícifas e, justamente por sua natureza, restritas.

Ou as bandas nacionais aspirantes aproveitam o momento da vinda de grandes artistas internacionais para divulgar com intensidade seus trabalhos ou se juntam para organizar o maior número possível de festivais, com organização razoável e preços baixos. Artistas ligados a igrejas evangélicas e cristãs em geral podem ensinar muito neste quesito.

É incrível que os poucos festivais realizados em São Paulo sejam realizados nos mesmos locais de sempre: Blackmore Bar, Manifesto Bar e outra casas de pequeno porte. Descentralizar é preciso, mas, acima de tudo, temd e haver união e organização para que haja volume. Os habituais 300 ou 500 espectadores podem subir rapidamente para mil pagantes se houver organização boa, preços razoáveis e local interessante para os shows.

O exemplo mais bem sucedido que se tem notícia no underground brasileiro é a Associação Cultural Cearense de Rock, que ajuda a organizar o ótimo festival anual ForCaos e mais uma série de eventos menores, mas sempre lotados e de qualidade. O que os paulistanos estão esperando para criar algo semelhante? E o que as bandas do interior de São Paulo estão esperando para criar a sua associação?

O grande público não vai descobrir o rock pesado/heavy metal nacional de uma hora para outra. O preconceito está fortemente arraigado e dissolvê-lo é coisa para anos de batalha. Mas talvez seja a hora de haver menos reclamação e mais iniciativa.

Edu Falaschi, ex-vocalista do Angra e agora dedicado integralmente a sua banda Almah, que sempre foi notório crítico do publico brasileiro fanatizado por estrelas internacionais, já percebeu uma mudança de rumo, ao realizar três shows lotados em setembro em três cidades brasileiras. Alternativas existem, mas o pessoal do metal vai ter de “camelar” ainda mais para despertar a atenção dos que detestam “bandas de boteco”.