Os perigos da demonização e da perseguição online

Estadão

08 Outubro 2012 | 06h36

Marcelo Moreira

O cancelamento do show da banda alemã Destruction, programado para dezembro em São Paulo, está sendo comemorado pelos fãs de heavy metal, blogs musicais e alguns jornalistas especializados. Alguns consideram esse fato um “marco no cenário musical brasileiro” por conta da movimentação de “fãs e internautas”.

É impossível negar que se trata de um fato importante, que merece bastante atenção. Por outro lado, é algo que embute um conceito perigoso de “justiçamento” e perseguição.

O trio alemão de thrash metal, que visita o Brasil com frequência, para nossa sorte, havia sido contratado pela produtora de shows Indestructible, até então novata no mercado.

Pouco tempo depois, descobriu-se que um dos proprietários da produtora é Felipe Negri, que tinha sido o principal diretor da Negri Concerts, empresa que fracassou ao organizar o Metal Open Air, no Maranhão, ao lado da local Lamparina Produções.

O que deveria ser um grandioso festival no Maranhão se tornou um dos maiores fiascos da história do metal mundial, com fãs lesados, bandas cancelando shows por falta de pagamento, fornecedores desmontando estruturas em pelo festival, além de outras falhas imperdoáveis, sem contar o comportamento reprovável dos organizadores ao comentar a infinidade dos problemas do evento.

As duas empresas estão sendo alvo de processos judiciais em todo o País por consumidores lesados, bem como fornecedores que ainda reclamam pagamento. Músicos e fãs que estiveram em São Luís não têm dúvidas de que Felipe Negri e seus sócios no Metal Open Air são picaretas e agiram com má-fé. Diante da fartura de depoimentos e evidências, essa hipótese não pode ser descartada.

É evidente que, com um histórico desses, qualquer evento patrocinado por tal empresário tem de ser visto com muitas ressalvas e reservas – com toda a razão.

 

O trio alemão Destruction

No entanto, o que se viu na última semana foi uma agressiva campanha contra a Indestructible por meio de e-mails e redes sociais, em um movimento que beirou a demonização. Diante de tal repercussão, a banda alemã adiou a vinda ao Brasil, conforme publicou no Facebook o vocalista da banda, Schmier.

Não se trata de negar a gravidade dos fatos ocorridos em São Luís dos grandes prejuízos aos consumidores. A quantidade problemas, abusos e pataquadas no Metal Open Air suscita punições severas para a no mínimo incompetência demonstrada na organização.

O que incomoda é que já houve uma condenação pública do empresário Felipe Negri, sem que houvesse qualquer conclusão de processos judiciais.

Especialistas em direito cível e direito do consumidor são quase unânimes, ao analisar o caso de São Luís, que os organizadores fatalmente serão condenados a indenizar os lesados e que há enormes indícios de má-fé e até de crime contra a economia popular. O problema é que, enquanto não há sentença, qualquer perseguição por conta disso ganha ares de linchamento moral e público.

Será que o empresário, que ainda não teve sentença declarada, merece ser perseguido a ponto de inviabilizar qualquer negócio no futuro? Até quando essa perseguição vai durar? Até o momento o que se sabe é que houve enorme incompetência no Metal Open Air. Incompetência é motivo para banimento perpétuo do mercado?

É bom lembrar que, após o festival de São Luís, a Negri organizou os shows das bandas Therion, Coal Chamber e Fear Factory, que não registraram nenhum incidente – estive em dois deles, e a organização foi discreta, como tinha de ser, sem problemas.

Parece não haver dúvidas a respeito das responsabilidades a respeito das lesões causadas aos consumidores e as condenações por danos morais são consideradas certas. Nada mais justo. Daí a dizer que houve crime, má-fé e deliberada intenção de prejudicar fãs e artistas vai uma distância muito grande.

Não se trata aqui de defender o empresário. As responsabilidades dele estão comprovadas de várias formas. Trata-se apenas de alertar para um perigoso movimento de satanização e perseguição a alguém que errou bastante. Mas será que, neste momento, é caso para banimento perpétuo e perseguição implacável sem que haja a comprovação de crime – ao menos por enquanto?

Leia aqui a carta aberta de Felipe Negri publicada na última sexta-feira a respeito das acusações que tem sofrido e sobre os problemas envolvendo o Destruction. 

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