Onde o rock nacional se enquadra na música brasileira?

Estadão

29 Outubro 2012 | 06h42

Henrique Papatella – músico da banda Scarcéus

Tem gente que acha que a solução é se meter dentro de guetos para um público ‘selecionado’… Respeito essa postura, mas pra mim não basta. Ficar tocando cover em bar de rock com neguinho chapado gritando ‘Ozzy’, ‘Iron’, ‘System’, ‘AC/DC’ e mesmo ‘Raul’, já encheu o saco! Adoro esses artistas (são ícones e meus ídolos!) e até mesmo alguns desses ‘inferninhos’ mas se não houver música autoral na parada o futuro é ainda mais negro.
 
Aliás, acho quase esquizofrênico o sujeito ter uma banda cover dos ‘Bs’, imitar os tiques dos ‘Bs’, ter os mesmos instrumentos dos ‘Bs’, o mesmo cabelo dos ‘Bs’ e se vangloriar de ser o melhor cover dos ‘Bs’ de sua cidade… Isso é ‘autoanulação’! Para celebrar os ‘Bs’ é só colocar um cd (ou um vinil…) pra tocar, pois a obra dos ‘Bs’ é eterna! Mas os ‘Bs’ não vão mais voltar…
 
Que surjam novos ‘Bs’! O cover pode servir para que as pessoas associem uma proposta nova a um artista que elas já conhecem. Versões e adaptações são uma boa forma de mostrar seu estilo para o público.
 
Até porque, se você tem a chance de se apresentar numa exposição agropecuária no interior do Brasil para 10 mil pessoas e toca um repertório inteiro de ‘inéditas’, vai todo mundo embora pra casa, por melhor que seja o seu som. Nem a Ivete Sangalo toca só inéditas em seus shows… Tem que ficar atento com esse tipo de coisa! O radicalismo é contraproducente.
 
Outra coisa… O ‘rockeiro brasileiro’ é, em grande parte, preconceituoso. Não que o camarada tenha que engolir qualquer lixo, mas é só alguém começar a cantar em português que ele começa a se contorcer todo… Ele mete o pau em tudo, diz que falar de assuntos ‘delicados’ como AMOR é brega, mas quando quer transar com alguém fora de sua ‘tribo’ grava aquela coletânea LOVE METAL, repleta de ‘Love ’ para sua possível ‘vítima’ e acha o máximo! Ou seja, ‘Eu te amo’ não pode, mas ‘I Love you’ pode…
 
Vão me dizer também que não surgiu ninguém no Pop/Rock nos últimos anos no Brasil… Fato! Mas surgir como? A grande mídia está alugada para outros gêneros! Algumas novas bandas foram meio que apadrinhadas pela crítica especializada, mas de tão ‘cults´, não alcançam os entremeios da real vida musical nacional…
 
Quando não são ‘intelectuais’ cuja música tem aura de projeto paralelo, são ‘pós-adolescentes’ barulhentos (no sentido técnico) com 30 pedais, mas que não aprenderam ainda a tocar e a cantar afinado. Aí o povão assusta! rs… Vão me dizer que o rock não é pro povão… Como assim? Experimente tocar uma versão de um hit dos Raimundos e veja se a massa não vem abaixo! Se o rock até pouco tempo atrás era POPular talvez um dia possa voltar a ser…
 
Tenho visto algumas bandas consagradas do pop-rock nacional reclamarem da atual situação… Não deveriam! Várias destas foram a última geração de bandas financiada pelas ‘majors’! A retração do mercado pop se deve, em parte, à postura dessas bandas que não souberam ou não quiseram fazer com que o público para esse estilo crescesse. Ficaram olhando para o próprio umbigo e não pensaram corporativamente…
 
Quem já tentou ‘abrir’ shows dessas bandas sabe do que estou falando… Em tese, se vários grupos do seu segmento obtém sucesso, o seu mercado tende a aumentar. Então, dar uma força para quem está começando não é só altruísmo, é estratégia de mercado! Mas aí surgem os egos… O ‘astro do rock’ parece ter o ego ainda mais inflado que as demais estrelas! E toda arrogância será castigada…
 
A MTV, que por muito tempo ditou as regras da cena pop no Brasil, e que poderia funcionar como uma alternativa numa época de ‘trevas’, resolveu dificultar ainda mais o processo se afastando abissalmente do que pode ser considerado viável em termos de música no Brasil.
 
Tanto que outras ‘emissoras musicais’ que se mostraram mais sensíveis ao que acontece de fato no país, passaram a ter mais relevância nesse meio. Se você liga a TV na MTV e olha pela janela da sua casa notará uma completa desconexão entre as partes…
 
Com aquelas ‘figuras’ e sua programação interplanetária, a emissora parece querer se afastar irremediavelmente da realidade cultural e mercadológica do Brasil. Na minha opinião, essa postura irônica baseada no ‘stand up’ e programas cheios de blá,blá,blá são uma tortura e me parece que foi justamente onde a MTV tentou entrar mais em sintonia com o que está acontecendo (de ruim) nas TVs abertas…
 
Esse modelo estilo ‘Pânico na TV’ é ultrapassado, repetitivo e as músicas desapareceram até do antes badalado Top 10 da emissora (a música quase nunca rola por inteiro…). Agora parece que compraram a briga do RAP… Vamos ver o que acontece!
 
A vanguarda e o romantismo são louváveis, mas ignorar a maior parte da realidade musical nacional é burrice. As pessoas que estão enfurnadas nas grandes metrópoles brasileiras e que podem fazer algo PRECISAM tirar esses ‘traseiros refrigerados’ de seus escritórios às moscas e reconhecer que nós não estamos na Europa e nem nunca estaremos. Existe um país gigantesco fora das capitais doidinho para gostar de alguma coisa bacana, sem apelações. Movimentem-se ou morram!
 
A cena alternativa não basta. É vangloriada por alguns, mas a ‘panelinha’ também rola solta e com um agravante: Sem dinheiro! Quem não tiver papai rico tá fodido (quase sempre)! Os grandes festivais são uma boa maneira de se chamar a atenção novamente para o gênero, mas essa estratégia de priorizar ‘bandas gringas cabeça’ que nem em seus próprios países são relevantes não ganham eco por aqui. É por isso que quando o Rock in Rio se dispõe a abrir espaço para outras tendências deve ser parabenizado! É uma ótima sacada!
 
Contextualizar novamente o rock em meio à cena musical e mercadológica do país é uma maneira de fazer com o que o grande público se atente para outras possibilidades devido à repercussão que essa ‘marca’ tem. A galera do metal não aprova a ideia… Tudo bem! Que compareça só nos dias de suas atrações preferidas.   
 
Muito se fala que a internet é a salvação da música… Eu não acho! A internet é apenas uma ferramenta que pode ser usada de maneira útil. A banda tem que ser real! Virtualmente a gente vê todo dia um novo popstar que não faz show em lugar nenhum! Os números de views no youtube e vários outros indicativos de ‘sucesso’ na rede mundial podem ser forjados… Raramente alguns desses fenômenos virtuais eventuais conseguem dar sequência na carreira. Essas fórmulas mirabolantes são tiros nos pés. E outra, tem que saber tocar ao vivo, ok? Em estúdio, com as possibilidades atuais, qualquer um pode ser ‘virtuose’!
 
Darei exemplos de estratégias bem sucedidas… Se você vai passar férias no litoral da Bahia, dezenas, centenas de barraquinhas e ambulantes vendem coletâneas variadas de Axé Music. Dizem alguns que várias dessas bandas e artistas, até de renome, se ‘autopirateiam’ com o intuito de lucrar mais (é óbvio!), mas também de divulgar seus lançamentos para o resto do país. Resultado: Hoje em dia as ‘micaretas’ acontecem no Brasil inteiro, o ano inteiro…
 
Se você tenta comprar um show do artista sertanejo do momento, o escritório dele quase te obriga a levar mais uma ou duas atrações do mesmo grupo empresarial. Aí o mercado cresce… Parabéns pra eles!
 
Se a base de tudo é o equilíbrio, por que não tentar aplicar essa filosofia no pop, no rock? Talvez seja utopia, mas é o que me resta dizer ou fazer… Quem conseguir apresentar uma proposta musical que não constranja a inteligência de quem é mais exigente, mas que também não se afaste do que a ‘massa’ está preparada para consumir, poderá ser inserido nesse contexto atual de mercado, acredito eu.
 
Acho possível algo simples (mas não medíocre…) ser absorvido por todas as tribos sem maiores sofrimentos. Afinal, algumas das melhores canções já compostas, as mais relevantes talvez, são SIMPLES! Ou quem sabe não surja alguém com uma proposta tão extravagante, tão absurda, tão politicamente incorreta que de tão improvável se torne unânime e que rompa com tudo que estamos presenciando por aqui… Algo tão imponderável quanto o gosto pessoal de cada um.
 
Na música, na arte, tudo pode! Aliás, quase tudo… Que seja verdade ao menos!

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