O som da redenção do Spiritualized

Estadão

13 Outubro 2012 | 17h00

Roberto Nascimento

“Ajude-me, Jesus”, canta Jason Pierce na tristonha So Long You Pretty Thing, que encerra seu novo disco, Sweet Heart Sweet Light, lançado no País pela LAB 344. Vindo de um artista conhecido por seu histórico com heroína, e por ser líder do Spiritualized, uma das grandes bandas britânicas dos anos 90, seria natural deduzirmos que uma tragédia musical se aproxima.

Mas os fatos contradizem. Jason Pierce está “clean”, como eles falam, e vive uma renascença criativa que resultou em um dos grandes, se não o melhor, disco de rock do ano (fãs do Oasis ou The Verve concordariam). Jesus entra na história apenas figurativamente, pois o Spiritualized tem um vínculo inseparável com o gospel, desde os anos 90, quando se firmou como um dos grandes grupos de britpop, embora tenha feito mais sucesso com a crítica do que com o público.

Discos como o aclamado Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space, de 97, são prenhes de um refinado senso histórico, com referências a gospel, country e blues, além de exprimirem um desejo de redenção – aquilo que identificamos como “alma” quando ouvimos música negra – pouco comum entre bandas de rock modernas, avessas a referências desgastadas, já responsáveis por revoluções no rock de outros tempos.

Ladies and Gentlemen, que foi relançado em 2011, acompanhado de uma série de elogiados shows da banda, modernizou esse evangelho, uma história que Jason deu continuidade em seus discos dos anos 2000, e aperfeiçoa em
Sweet Light Sweet Heart.

“Eu amo gospel”, conta Jason, pelo telefone ao Estado. “Já disse que tudo o que queremos da música é ouvir honestidade. É por isso que quando uma série de bandas começa a imitar um estilo que deu certo, só para fazer sucesso, ficamos entediados. O gospel tem aquele desejo de salvação inerente, pois vem de pessoas que fazem música em momentos muito intensos”, conta.

Mas ao contrário do que indica a luz celestial refletida nos arranjos de cordas de seus discos, a verdadeira influência do Spiritualized é o Doo Wop. “Ouvi Doo Wop por muitos anos. Lou Reed ouvia muito doo wop. São fascinantes aquelas letras que falam de como os céus me mandaram um anjo. Letras cheias daquela linguagem sobre amor, sobre Deus”, explica.

“Eu não sou religioso. Não interessa se Deus existe. Mas existe o amor. Então, quando converso com Jesus em minhas músicas, não estou literalmente falando como ele. Estou retratando um momento que todos nós, ateus ou religiosos, entendemos. O que significa ser um homem, amar, etc… Isso é uma linguagem. Quando Brian Wilson canta God Only Knows, ele não está falando de Deus, e sim de amor”, conta, logo após revelar que quase fechou um contrato para tocar no Brasil no fim do ano, mas o acordo não deu certo.

Quanto às drogas, Jason diz que foi difícil fazer o disco sem usá-las. “Estou ‘clean’ de uma maneira mais literal. O tratamento não é algo prazeroso. É difícil tirar tempo de sua vida para deixar de se drogar. Não é como câncer, que tem de ser imediato. Então eu escolhi fazê-lo enquanto gravava o disco. Foi difícil. Você tem de estar saudável para explorar ideias e canções. Mas eu já tinha feito muitos discos drogado, então imaginei que seria uma experiência mais lúcida.”

Para a crítica, o esforço funcionou. Sweet Heart recebeu elogios de publicações como a Pitchfork e a New Yorker.“É difícil dizer como o disco teria soado se eu estivesse em outro estado. Há algum tempo li um livro sobre Bowie e fiquei sabendo que o seu disco mais pop e transparente da trilogia de Berlim, o Station to Station, foi produzido quando ele estava em uma condição semelhante à minha. Eu estava me sentindo péssimo quando fiz esse disco. Acho que quando estamos nesse estado, talvez façamos os disco mais radiantes, para mascarar o que se passa dentro de nós”, reflete.

Quando aponto que Pierce foi mal compreendido, pois o disco soa mais leve do que ele deve ter se sentido, Jason responde: “É assim que é. Eu me relaciono de forma errada com diversas canções. Às vezes penso que são sobre algo, e descubro que estava cantando a letra de forma errada. Mas isso não interessa. Quando escuto I Can’t Stop Loving You, de Ray Charles, nunca, uma vez, pensei em não conseguir parar de amar”.

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