Metal progressivo em alta no Brasil: Rodrigo Simão, Bad Salad e Remove Silence

Estadão

08 Outubro 2012 | 22h35

Marcelo Moreira

O grande trio canadense Rush sofreu durante muito tempo o preconceito generalizado em relação ao seu “pedante” e “complexo” som. O banda cansou de ouvir o bordão ou se ama Rush, ou se odeio, não existe meio termo”. O heavy metal progressivo também sofre do mesmo mal – não por acaso, tem suas origens nos maravilhosos trabalhos do próprio Rush no final dos anos 70.

No Brasil o prog metal ainda é mais marginalizado do que o heavy metal, por mais que grandes bandas surjam, com grande qualidade. O Mindflow, de São Paulo, e o Maestrick, de São José do Rio Preto (SP), são a prova de que é possível fazer som pesado complexo e de qualidade no Brasil. Ainda assim, é um som para poucos.

Nada disso parece ter feito diferença para três artistas brasileiros excelentes que resolveram abraçar o gênero. Seus trabalhos mais recentes são a melhor prova de que o metal progressivo nacional é excelente.

Rodrigo Simão é o tecladista que acompanha o trio paulistano Dr. Sin. Veterano na cena musical brasileira, é considerado uma referência no instrumento no Brasil, principalmente entre os roqueiros, e já acompanhou artistas internacionais em turnês e shows por aqui, como o vocalista Eric Martin, que atualmente voltou para o Mr. Big.

“2012” acaba de ser lançado e os mais desavisados podem achar que se trata de um álbum do Dr. Sin, só que mais pesado e, é claro, bem mais progressivo. Quem tiver essa impressão não estará totalmente errado. O trio acompanha Simão por todo o CD com muita competência, sendo o que o baixista Andria Busic é o produtor e o vocalista na maioria das faixas.

Simão não economizou ambição ao gravar seu primeiro álbum solo. Esse tipo de ambição pode ser facilmente confundida com pretensão e até autoindulgência, mas não é o caso. “2012” é um senhor álbum de rock, pesado, denso, com grande conteúdo e execução primorosa de todos os instrumentos – fruto de quase 20 anos de trabalho e retrabalho das composições.

O teclado, é óbvio, dá as cartas e é o condutor de todos os temas, mas nada em excesso. Ecos de gênios como Keith Emerson e Rick Wakeman aparecem em várias partes, mas as referências são recentes.

Há influência de Rush por toda a parte, assim como é possível ouvir referências a Dream Theater, Queensryche e até mesmo a Fates Warning – tudo cortesia da fantástica performance de Edu Ardanuy nas guitarras. Por outro lado, é provável que o baterista Ivan Busic nunca tenha tocado tão pesado em sua carreira. Um álbum primoroso.

Muito mais fundo no subgênero mergulhou o Bad Salad. Influenciado diretamente por Dream Theater e Symphony X, “Uncivilized”, o primeiro álbum, será lançado nos próximos meses e já candidato a ser um dos grandes lançamentos deste ano.

Já são três as músicas divulgadas para promover o lançamento do álbum: “Nemesis”, “Crowded Sky” e “Mourning”. O DNA do prog metal está impregnado em cada nota das faixas, que são longas, muito técnicas e com um apuro musical fora do comum.

O lançamento do álbum será acompanhado de uma miniturnê brasileira incluindo as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Goiânia. Além de executar o álbum “Uncivilized” na íntegra, a banda apresentará músicas de artistas de renome mundial e que influenciaram o trabalho da banda, como o já citado Dream Theater, Pantera, Metallica e Opeth.

A turnê contará com a participação especial do tecladista sul-coreano Junghwan Kim. A formação atual conta com Denis Oliveira (vocais), Thiago Campos (guitarra), Felipe Campos (baixo) e Caco Gonçalves (bateria).

Outra banda de São Paulo, referência do rock pesado com influências progressivas, está com álbum na praça, embora ampliado o leque musical. O Remove Silence, excelente banda que conta com o guitarrista Hugo Mariutti (ex-Shaman e que toca com André Matos e Viper atualmente), acaba de lançar “Stupid Human Atrocity”.

A primeira música divulgada, “Admirable”, e que abre o trabalho, é uma aula de rock, e remete à linha adotada pela banda desde a sua criação, um autêntico prog metal com um trabalho primoroso de guitarras e vocais. À medida que as músicas avançam, o prog metal e o peso vão diminuindo a intensidade sem que haja prejuízo da qualidade musical.

Formado por Hugo Mariutti (vocal e guitarra – Andre Matos, Viper, Shaman), Fábio Ribeiro (teclado – Angra, Shaman, Andre Matos), Alê Souza (vocal e baixo) e Edu Cominato (vocal e bateria – Jeff Scott Soto), o grupo acerta em cheio em músicas com variadas referências, como “Real World”, “The Train”, “How Long is the Street”, “Wormstation” e “Spellbound”.

De vez em quando surgem algumas pitadas de rock alternativo modernoso e até ecos de pop dos anos 80 – New Order? -, mas nada que soe ofensivo aos puristas do metal. Ainda é um álbum de heavy metal? Na essência sim, mas a sonoridade da banda ganhou muito com a imersão em outros estilos. Acertaram em cheio neste novo álbum.