Hetfield e Ulrich – o claro e o escuro do Metallica

Estadão

14 Outubro 2012 | 07h00

Paulo Severo da Costa

A questão mais importante dos últimos anos não se refere ao futuro do planeta, a bolha imobiliária, o desemprego na próxima década- ou qualquer outra trivialidade. A grande pergunta é: como uma banda de thrash metal, sem padrinhos famosos e- ao menos no início- sem nenhum resquício de som comercial, se tornou uma das maiores bandas de rock n´roll dos últimos sessenta anos? Qual é o raio do segredo do sucesso do METALLICA?

Perguntinha fácil né? Primeiro que o tal de segredo-como qualquer um sabe- não existe: o que existe mesmo é competência, senso de oportunidade e claro, muita sorte. No documentário da VH1 sobre “Metallica” (o álbum preto), LARS diz a KIRK a respeito da forma como o riff de “Enter Sandman” foi introduzido na música: ”Se não fosse assim, você ainda viveria em East Bay”. Naquele disco a banda havia contratado o produtor “comercial” BOB ROCK, fez um puta disco e entrou pra história.

O METALLICA já foi chamado de traidor, de mercenário (no episódio NAPSTER) e resistiu apesar das críticas. Já teve uma das baixas mais importantes da história do metal (a morte de CLIFF BURTON em 1986) e seguiu firme. Já compôs riffs históricos e já lançou discos horrorosos, mas sempre se reinventou e suportou o teste dos anos. Entrou para o “Top 4” das bandas de metal- na companhia de SABBATH, JUDAS E IRON- criando um novo estilo de metal e lotando estádios na mesma proporção de ídolos pop como o U2. Mas o grande diferencial do METTALICA está lá dentro mesmo, desde o início da banda.

Repare: quase toda banda de sucesso tem o seu claro/escuro, tese/antítese, queijo/goiabada: OZZY/IOMMI,JAGGER/RICHARDS,PAGE;PLANT,AXL/SLASH, etc. Isso não é ciência exata leitor, mas é uma constante considerável.O que o METALLICA traz de diferente é o cérebro/coração, o falastrão/antisocial, o marqueteiro/carismático,enfim LARS/JAMES.

LARS ULRICH é dinamarquês, rico desde sempre, falador, visionário. Arquitetou o METALLICA para ser a maior banda do mundo, baseando seu som inicialmente na NWOBHM, mas sabendo trabalhar a imagem da banda de modo a acompanhar o “movimento do mundo” quando necessário.

HETFIELD é quieto, de família classe média e nascido no seio da tal Ciência Cristã, caçador, ex-beberrão, e compositor de riffs antológicos. JAMES, em sua própria definição, canta como “um marinheiro”, mas soube expor suas dores para o mundo quando compôs pérolas personalíssimas como “Nothing Else Matters” e “The God That Failed”

HETFIELD e ULRICH são a água e o óleo: quebram o pau, quase se separaram na época de “St. Anger”, divergem sobre quase tudo, mas não se largam- no fundo, sabem que só são fortes juntos. Juntos criaram a direção da banda quando puseram MUSTAINE para fora em 1983, tornando-se assim, os capitães do barco. Juntos souberam “juntar os cacos” depois da morte de BURTON e seguir em frente.

HETFIELD gostava de vodca, LARS de cocaína. O baterista queria nomear “..,And Justice For All” como “Garotas Selvagens, Carros Velozes e Muita Droga”. LARS é o pop star, o colecionador de arte, o ‘dono da bola’; JAMES é o abandonado pelo pai quando criança, o adolescente que só tomou uma aspirina pela primeira vez aos dezesseis anos, o tímido que se escondia atrás de várias garrafas vazias e pouco, muito pouco papo.

LARS adora o mainstream, o brilho e comprou uma jaqueta igual a de AXL ROSE na primeira série de shows com o GUNS em 1988. HETFIELD odeia Los Angeles, os excessos e toda a “aura” que envolve o showbussines. LARS é o democrático, JAMES é a autocracia.

JAMES chegou ao limite em 2001, quando se tornou em uma clínica de reabilitação e ficou quase dois anos fora do METTALICA- queria se um pai de família, queria tomar o controle do cotidiano.LARS, mesmo cinqüentão, continua querendo dominar o mundo e apesar de mais “comportado”, ainda é o mesmo fanfarrão de trinta anos atrás- fazendo caretas atrás de seu Kit e muito barulho através da mídia.

Em entrevista publicada em maio de 2010 pela Roadie Crew, JAMES declarou: “Não há dúvida que fomos escolhidos pra cumprir essa jornada juntos. Nos unimos e, assim como acontece comigo e minha mulher, os opostos se atraem e se unem numa batalha interminável. Nós temos essa química que sempre funciona, apesar dos ressentimentos que sempre surgem. Há uma agitação, uma fricção que ás vezes solta uma faísca”

Essa é a essência: por isso são o louco e o ranzinza, a razão e a emoção, o fogo e a palha- a tese e a antítese. São dois- mas são como um só.

Discografia essencial:

· Kill ‘Em All (1983)
· Ride the Lightning (1984)
· Master of Puppets (1986)
· …And Justice for All (1988)
· Metallica (1991)
· Death Magnetic (2008)

Mais conteúdo sobre:

Metallica