Guitarrista paulista resgata o 'blues de rua' de Chicago

Estadão

01 Maio 2013 | 07h33

Marcelo Moreira

Três músicos, um estúdio gigante, um fotógrafo talentoso que se transformou em excelente diretor de vídeo e a vontade de recriar um clima espontâneo, como se estivessem gravando na rua. Como na Maxwell Street de Chicago, em 1964. O guitarrista paulistano Amleto Barboni não economizou ambição e referências na hora de gravar o seu novo DVD, que será lançado no próximo final de semana.

Veterano dos palcos e dos estúdios da cidade de São Paulo, e apadrinhado de gente como André Christóvam, Barboni se tornou um celebrado músico de blues da cidade, além de requisitado produtor musical. E toda essa bagagem está em “A Night at Maxwell Street”, registrado no estúdio de fotografia de Gustavo Arrais, premiado fotógrafo que abriu sua casa para registrar o trabalho do blueseiro paulistano – e, de quebra, dirigir as filmagens.

O DVD marca também o lançamento da gravadora Sonoressencia, de propriedade de Barboni, e o surgimento de uma produtora de vídeo em parceria com Arrais. “Esse trabalho marca uma nova fase em minha carreira, dando-me a oportunidade de ser mais versátil e ao mesmo tempo de expandir meus horizontes artísticos. A parceria com Arrais é um dos pontos importantes nesta nova fase.”


O trabalho registrado em DVD tem a inspiração no blues urbano norte-americano dos anos 50 e 60 do século passado, tanto que a maior parte do repertório é formado por releituras de importantes canções do período. O ponto de partida, entretanto, é “Live at Maxwell Street”, de 1964, do guitarrista e cantor Robert Nighthawk. Nada melhor do que um trabalho cru e despojado, para a alegria dos puristas.

“Quis, de alguma forma, resgatar a espontaneidade e a informalidade daquele disco, gravado há quase 50 anos. Tudo foi feito de forma rústicas, mas não largada, até mesmo o registro dos carros passando por perto, buzinando, e do falatório de pedestres que passavam por ali, tudo foi pensado. Considero um registro histórico e foi um desafio tentar ao menos reproduzir músicas com um pouco daquele clima”, afirma o músico paulistano.

Foi necessário mais de ano tocando pelo Brasil no formato pensado para a gravação do DVD até que o guitarrista sentisse  que estava pronto para registrar a execução das canções em março de 2012, no estúdio de Gustavo Arrais. Para acompanhá-lo no ambicioso projeto, duas feras do blues: Marcos Ottaviano na outra guitarra (ex-Blue Jeans e elogiado músico solo) e Richard Montano na bateria, experiente e versátil músico que já tocou com Nuno Mindelis, entre outros. O gaitista Robson Fernandes aparece como convidado especial.

A ausência de um baixista também remete aos trabalhos de Nighthawk, tudo para entrar no clima da Maxwell Street. “É diferente tocar com outro guitarrista, sem baixo. A dinâmica é diferente, as bases e os solos precisam de mais atenção e mais entrosamento. O som até pode sair um pouco mais rústico, mas é um desafio conseguir a sonoridade desejada neste formato. Toquei muito até encontrar o ponto certo para decidir gravar de uma única vez, em um único dia.”

Gravado com câmeras de última geração, usadas em filmes de ação em Hollywood, a central do cinema norte-americano, “A Night at Maxwell Street” capta imagens de qualidade altíssima, com uma direção criativa e, de certa forma, ousada de Gustavo Arrais.

Sem público, mesmo sendo gravada ao vivo, a execução precisava de uma captação diferente, e de uma direção mais incisiva de imagens, para registrar o feeling e a emoção de uma execução primorosa, como se fosse um concerto. O resultado é bem satisfatório.

“Não houve overdub (correção posterior de eventuais erros ou problemas técnicos). O que se ouve no DVD é a execução de uma banda entrosada e completamente ciente do que deveria ser tocado. Achei o resultado primoroso, era o que eu queria fazer e tudo deu certo”, diz Barboni. “Pude experimentar uma nova estética blues e alguns conceitos, o que é fantástico para qualquer músico.”

Com o lançamento da gravadora, o guitarrista terá de apertar a agenda para conciliar a carreira solo e a de produtor requisitado. Já tem dois CDs engatilhados, de duas cantoras brasileiras, para produzir, e afirma ter 60% do seu segundo álbum solo, de blues, pronto. “Sou essencialmente um músico e não pretendo mudar minha filosofia de trabalho, mas é claro que terei de estar mais presente no estúdio como produtor, eventualmente, com o aumento de demanda pelos serviços da gravadora.Creio que tempos interessantes estão por vir.”

A inspiração

Inteligente, rude, inspirador, desapegado, despreocupado e gênio do slide. Robert Nighthawk foi um rival à altura para nomes do porte de Muddy Waters e Earl Hooker (guitarrista e primo de John Lee Hooker). Virou lenda em Chicago e no Arkansas, onde nasceu, mas se tornou um blueseiro cult por não gostar de gravar, fato que o deixou em desvantagem em relação ao pupilo e depois rival Waters. A seguir, uma breve biografia de Nighthawk, retirada do interessante blog Pintando a Música:

 

robert nighthawk

Robert Lee McCollum (1909-1967) foi uma das figuras fundamentais na história do blues. Embora ele tenha gravado dos anos 30 ao início dos anos 40 sob uma variedade de nomes, – Robert Lee McCoy, Rambling Bob, Peetie’s Boy, – ele finalmente adotou o pseudônimo Robert Nighthawk do título do seu primeiro disco, ‘Prowling Night Hawk’.

Nascido em Helena, Arkansas, saiu de casa muito jovem e se tornou um músico de rua. Durante esse período foi com Houston Stackhouse que aprendeu a tocar guitarra slide, e com quem viajou pelo sul do Mississipi. Morou por um tempo em Memphis, onde tocou com bandas locais, dentre elas a ‘Memphis Jug Band’. Depois de viajar pelo Mississipi, ele achou interessante adotar o nome de sua mãe, e como Robert Lee McCoy se mudou para St. Louis, Missouri.

Nessa época, década de 30, tocou com Henry Townsend, Big Joe Williams e Sonny Boy Williamson. Os quatro gravaram juntos no estúdio da ‘Victor Records’ e Robert Lee McCoy também gravou o seu primeiro disco. Essas gravações levaram os outros à uma carreira em Chicago, ao contrário de Robert McCoy que continuou sua vida errante, acompanhando outros músicos ou sozinho. Também se tornou uma voz conhecida nas estações das rádios locais. Depois Robert Lee McCoy desapareceu.

Maxwell Street (1927)    Maxwell Street (1950)
Maxwell Street 1927/1950

Após alguns anos, ele ressurgiu como o guitarrista Robert Nighthawk usando a técnica de slide guitar e gravou pela ‘Chess Records’, entre 1949 e 1950, e competiu com Muddy Waters pela posição principal nas gravações da Chess. Muddy Waters se sobressaiu por ter mais domínio de palco.

O enorme lapso na discografia de Nighthawk é devido ao seu desinteresse aparente em gravar e quando o fez, nunca alcançou o sucesso de seus alunos mais célebres, Muddy Waters e Earl Hooker. Ele era mais feliz trabalhando nos clubes e tabernas e no mercado aberto em que se transformava a Maxwell Street aos domingos.

Em 1963, foi redescoberto tocando por algumas moedas nas ruas de Chicago, e então voltou a gravar algumas sessões, e se apresentou em clubes noturnos. Retornou para Arkansas como atração do famoso programa de rádio ‘King Biscuit Time’ da KFFA (AM) depois que Sonny Boy Williamson morreu.

Em 1964, Nighthawk já podia ser encontrado tocando novamente em Maxwell Street, berço do Chicago blues, um movimentado mercado ao ar livre localizado no coração do gueto negro de Chicago. A Maxwell Street tornou-se um ímã para os músicos que chegavam a Chicago, bem como para aqueles já estabelecidos na cena do blues local.

A ‘Rounder Records’ pela primeira vez lançou algumas dessas músicas em 1980, como ‘Robert Nighthawk Live On Maxwell Street 1964’. Robert Nighthawk deixou Chicago e voltou para sua cidade natal, Helena, e ficou por lá até a sua morte por insuficiência cardíaca, em 1967. Robert Nighthawk não é normalmente um nome lembrado quando se discute os grandes do blues de todos os tempos, mas deveria.

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