Feist: entre sussurros e o estrondo pop

Estadão

13 Outubro 2012 | 06h58

ROBERTO NASCIMENTO
 

“E por um ano, ela foi antipioneira, entoando canções melosas sobre as coisas que não deram certo”, canta Leslie Feist em Anti-pioneer, a oitava faixa do belo Metals, de 2011.

 Engavetada muito antes de Feist lançar seu segundo álbum, oito anos antes, sem “pertencer”, propriamente, aos títulos que lhe trouxeram fama internacional, Anti-pioneer finalmente encontrava seu lugar na retomada de Feist após dois anos de descanso. Nada mais providencial para uma canção singela, de nuances vocais exuberantes, que sobrevoam uma densa base de blues, e contam a história de uma desbravadora do oeste americano, que decidiu dar um tempo em suas expedições.

Antes de entrar no estúdio para gravar Metals, a cantora canadense, que se apresenta em São Paulo, em outubro, passara dois anos em férias. Foram sete anos em turnê, e dois discos que fizeram a ponte entre musa indie e estrela mainstream – amparados, logicamente, por 1234, o meiguíssimo hit dos comerciais do iPod Nano, de 2007, que tirou a cantora de casas noturnas e a colocou em arenas.

E tal como a personagem aventureira que protagoniza sua canção, Feist percebera que as “bandeiras mudaram de cores, os meses de números, e era hora de ir para casa”. “Depois de 7 anos, estava completamente exaurida. As coisas não estavam desacelerando, então fiz uma marca no oitavo mês do meu calendário, e quando cheguei a esta marca, desmoronei ao lado da minha mala”, conta Feist à imprensa em um e-mail feito para prevenir perguntas redundantes.

O sabático foi passado na França e no Canadá, em companhia de familiares, e plantando legumes no jardim. Tratando-se de uma cantora que tem o pé na estrada desde os 15, em turnê com a cantora Peaches, colaborando com a cultuada banda indie Broken Social Scene, e lançando os próprios discos, desde 1999, as férias são curtas. Ainda mais pelas conquistas de Feist desde o início da década.

Let It Die, seu segundo disco, vendeu 400 mil cópias, e fez dela “darling” indie de músicos e críticos. The Reminder, de 2007, extrapolou tudo isso, com 2,5 milhões de cópias vendidas, indicações para o Grammy e uma bonança de prêmios Juno, o Grammy canadense.

Dois anos lhe fizeram bem. Feist voltou à ativa aos poucos, tocando com Broken Social Scene, Wilco e Kings of Convenience. Sua retomada, gravada em Big Sur, na Califórnia, em um estúdio na beira de um penhasco, com vista para o mar, é seu trabalho mas contundente, embora fale baixo e passe longe de algo obviamente contagiante, como 1234.

Metals é uma pérola de canções acústicas, gravadas, em poucos takes, ao vivo, no estúdio. Os arranjos, concebidos por Chilly Gonzales, produtor de outros trabalhos de Feist, com participações do excelente saxofonista barítono Colin Stetson e de Brian LeBarton, diretor musical de Beck, dão ao disco uma dinâmica semelhante ao vaivém de uma brisa vespertina, até que deságuam em clímaces eletrizantes, como o de The Undiscovered First.

O timbre de voz meigo e irresistível, que fez escola com 1234, dá as caras em três ou quatro refrões mais açucarados, mas Feist parece empenhada em criar panoramas musicais intimistas, não em emplacar um hit. Isto é um dos trunfos e desafios de Metals, cujo silêncio pode ser pouco eficaz ao ar livre. Feist, que toca no Cine Joia, nos dias 22 e 23 de outubro, conversou, por telefone, sobre o disco, seu interesse pelo silêncio, e seu processo criativo.

Você já disse, em entrevistas, que Metals é um disco feito para ser ouvido a sós. É algo que você desenvolveu durante a sua carreira?

Eu acho que é como conversar com alguém em um boteco. O ambiente é barulhento, e você tem de gritar. Quando surge a oportunidade de falar baixinho, você descobre que pode dizer coisas mais importantes. Então, você desenvolve uma relação quieta com a pessoa que a escuta. Eu componho dessa maneira. Tento me concentrar em uma conversa silenciosa entre duas pessoas.

Metals não tenta emplacar algo como 1234. Houve, em algum momento, o impulso de escrever um hino pop?

Eu não tenho vontade de escrever um hino, mesmo que 1234 não seja de minha autoria. É uma canção que foi oferecida por uma amiga (a compositora australiana Sally Seltmann). 1234 se encaixou muito bem em meu mundo, mas não vem de um lugar em que as minhas músicas tenham existido em algum momento ou outro. Por isso, é curioso que aquela canção tenha ficado tão famosa.

Quando compõe uma música, você começa pela letra ou pela melodia?

Pode ser de qualquer um desses dois jeitos. Pode ser uma frase ou um slogan que ganha uma melodia, e isso vira o começo de uma canção. Ou posso estar caminhando pela rua, cantarolando algo e há um gancho melódico ali que vira um refrão. As melodias podem encontrar as palavras certas, ou um grupo de palavras pode ter uma melodia implícita.

Você já disse que o caminho do artista é, no fim das contas, solitário. É uma sensação com a qual você se depara quando compõe?

Talvez isso seja normal para as pessoas que inventam coisas, como, por exemplo, um escritor, que faz um livro que não existe antes de ele inventar as pessoas sobre as quais vai escrever. Ele combina palavras de uma maneira que elas nunca foram combinadas antes. Acho que essas pessoas podem ter de enfrentar elas mesmas com mais frequência do que pessoas que trabalham em um escritório, ou em um hospital. Elas se deparam todo o dia com a ideia de quão solitário realmente somos.

Compor é angustiante…

(risos) Sim, com certeza. Pode ser bem complicado encontrar coisas que soam bem juntas. Acho que pode ser estressante descobrir o próprio caminho, encontrar a direção certa. Mas angustiante não é a palavra certa, pois há também algo muito gratificante em fazer canções.

 

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