Evolução no segundo álbum da banda The Vaccines

Estadão

11 Outubro 2012 | 17h00

Jotabê Medeiros

The Vaccines têm um disco novo, e para quem gosta da ideia de um rock inglês tirado de uma costela do Clash e de outra dos Ramones, eles são os caras certos. Come of Age (Sony Music) sucede um fenômeno do rock independente, o álbum What Did You Expect from the Vaccines?, de 2011, que trouxe o grupo precocemente ao Brasil – eles tocaram num lotado Cine Joia em abril, e foi uma doideira.

Primor de simplicidade e entrega direta, o som dos Vaccines segue mínimo e contundente. “É você / É sempre você / Eu sempre soube / É você”, diz a letra de I Always Knew, que inicia com uns acordes que lembram Neil Sedaka. “Nunca ouvi, mas é verdade que é uma lembrança dos anos 1950, é deliberado, quisemos fazer uma homenagem àquele som clássico”, diz o guitarrista Freddie Cowan.

Essa atmosfera que parece nostálgica, mas que se dissolve em aceleração, prossegue com I Wish I Was A Girl, canção que justifica um pouco a capa “riot girrl” do disco, quatro garotas de cara suja encarando o fotógrafo. “A gente vem tentando, como banda, ter o processo do controle de criação, não entregar para alguém que não consiga representar o que nós somos”, diz Cowan. “Não pensamos muito em termos de futuro, apenas vamos tocando e sempre tentando fazer algo diferente. Isso é o mais legal do rock’n’roll.”

Cowan não concorda com as inúmeras comparações com os Libertines, prefere lembrar sempre que uma de suas maiores influências são os Beach Boys. “Adoro os Libertines, mas eles não foram uma influência para a gente. Eu os vi tocar, e adorei o segundo disco deles, acho maravilhosos, mas nossas raízes estão um pouco mais atrás.”

Outra relação que ele refuta é da nova música Weirdo com Creep, do Radiohead. “Cada um ouve o que quer, e essa é uma outra grande banda, é maravilhosa. Se querem ver como uma homenagem, ok, mas também é uma canção autônoma, têm sua própria história”, explica o guitarrista.

O primeiro disco dos Vaccines era mais na onda surf-punk. Tinha uma grande pegada geracional, e as plateias internacionais entenderam isso rapidamente, virou a banda “to watch” das revistas especializadas. “Você quer ser jovem mas só tá ficando velho/ E você tinha um verão, mas subitamente ficou gelado”, diziam, na letra de Family Friend.

A banda Vaccines em ação (FOTO: DIVULGAÇÃO)

“Quando a gente chegou aí para tocar no Brasil, ainda estava boquiaberto com o tanto de gente que nos conhecia. O lugar do show era fantástico, e a plateia participava, foi demais”, diz Cowan. Mais ou menos: já tinham até batido o Beady Eye, de Liam Gallagher, em alguns prêmios no Reino Unido.

Punk sem displicência. “Nossa intenção é empurrar adiante a tradição do pop clássico”, explicou, àquela altura, o cantor Justin Hayward-Young. Além dele e do elétrico Freddie Cowan, o Vaccines tem Arni Hjörvar no baixo (que, nos shows, ajoelha-se ao pé do microfone e enlouquece as garotas) e Pete Robertson na bateria.

Cowan (que é irmão de Tom Cowan, dos Horrors) credita grande influência ao guitarrista do Clash, Mick Jones. “Quando eu comecei a tocar, ele foi uma das maiores inspirações. É um cara incrível, mostra como tocar a guitarra numa banda punk, sem no entanto ser displicente”, afirmou.

O novo álbum, cujo título se refere ao ato de amadurecer, foi produzido no ICP Studios em Bruxelas e no estúdio Distiller em Bath, na Inglaterra. O produtor é Ethan Johns (que já produziu álbuns de Ryan Adams, Kings of Leon e da jovem Laura Marling).

“Não queremos mais ser uma banda indie. Queremos ser uma banda de rock”, afirmou o cantor, Justin, em uma entrevista na Inglaterra. “Um monte de bandas da atualidade não estão preparadas para tocar os discos que fazem, porque criam essas coisas no estúdio e depois dá o clique: e agora, o que vamos fazer? Para nós funcionou assim: vamos fazer o disco tão bom quanto sejamos capazes de tocar ao vivo. Pensamos muito e refinamos as canções, e quando fomos aos estúdio com Ethan era como se fôssemos fazer um take do resultado”.

Missão RG. A vibração ao vivo do grupo foi exacerbada, e o repertório da banda ganhou um lote de indie rock de botar fogo em pub. O problema é se o disco terá êxito ou se será acusada, como os colegas do Arctic Monkeys, de conseguir empilhar bons riffs mas sem uma canção.

É uma tarefa complicada, diferenciar-se do que está dominando o dial no momento. Essa intenção já está manifesta até nas letras. “Não sou um ícone adolescente/Não sou Frankie Avalon/ Não sou herói de ninguém.” Eles não querem parecer com Strokes, mas parecem de vez em quando. Não querem parecer The Drums, mas sugere algum parentesco, aqui e ali. Uma ou outra linha de baixo reaviva a memória com os Pixies. É uma das marcas do nosso tempo, o fato de que tudo parece já ter sido ouvido.

No Hope, que abre o disco, é de fato uma levada Libertines, assim como Bad Mood, só que nos tempos em que os Libertines mandavam no planeta. Não é uma lírica que vá rivalizar com as ambições de uma PJ Harvey, é bem menos literária. “É incrível como uma letra simples pode ajudar uma canção pop”, diz Justin Young. É nisso que ele foca, como compositor principal da banda.

“Não sou magnético ou mítico/Sou suburbano e típico”, canta Justin Young em Teenage Icon, com a velocidade já conhecida dos Ramones. Em I Wish I Was A Girl. (A vida é leve se você tem leveza no olhar), o desejo de buscar uma diversidade na batida os leva a uma viagem pelos primórdios do pop.

Freddie Cowan diz que, desta vez, a turnê dos Vaccines ainda não prevê uma nova viagem à América do Sul. Mas a experiência foi tão boa que ele não vê a hora de pintar novo convite.

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