Europa é um caminho, mas não a solução para o metal nacional

Estadão

22 Julho 2013 | 06h47

Marcelo Moreira

Sonhos de mais, público de menos. As bandas de heavy metal brasileiras vivem um período de baixa em relação aos espectadores, em um mercado saturado de shows internacionais semanais, mas não abandonam as metas de gravar CD e tocar no exterior. Para uns é mera utopia, para não dizer puro desperdício; para outros, banda de rock ainda pode ser um meio de vida.

Tem gente se dando bem na Europa neste ano de 2013. Shadowside e Lothloryen fizeram aclamadas turnês de dois meses em vários países,  o Uganga está prestes a lançar o seu novo CD, o ao vivo “Eurocaos”, gravado em um giro por seis países europeus há pouco mais de dois anos; SupreMa e Maestrick estão com CDs à venda em lojas físicas europeias e em virtuais com distribuição mundial. Pena que o reconhecimento n Brasil ainda não é suficiente para consolidar de forma definitiva suas carreiras, já que não é possível tocar na Espanha, Inglaterra ou Alemanha todo mês.

Nada disso parece incomodar uma banda de metal progressivo do interior do Paraná. A banda Labbra deverá embarcar em breve para a Alemanha com demos prontas nas mãos e um imóvel próprio para ser transformado em estúdio. “Aparentemente parece loucura embarcar em um projeto desses, mas as pessoas não imaginam o quanto gastamos. Comprei um imóvel bem barato na Alemanha e, contas feitas, será possível viver da música, já que estaremos perto das gravadoras e selos musicais e, principalmente, perto dos circuitos massivos de shows com bom público”, explica Diogo Gaglianone, o baterista visionário e empolgado.

Aspirante a publicitário que se tonou tradutor e intérprete, o baterista já viveu em locais dos mais diversos nos últimos 20 anos – da Arábia Saudita ao Canadá, passando por temporadas na Inglaterra e outros países. Na ponta do lápis, deve saber o que está fazendo, de acordo com as planilhas feitas e refeitas. “O imóvel na Alemanha servirá de estúdio e de moradia para a banda quando estiver na Europa. Não haverá gasto com hospedagem, o que reduz bastante os custos. Estamos bastante animados.”

Gaglianone não é um novato na área. Integrou a banda Cruciform, presente na primeira coletânea da Rock Brigade Records, a Metal Brigade vol.1, de 1988. Segundo ele, não foi muito além do Projeto Meteoro no Teatro Mambembe, em São Paulo. “Sem o material que te abre as portas, ou que te faz conhecer as pessoas que te ajudarão a abrir as portas, não adianta estar em época de crise ou de bonança. O que interessa é o material e a organização atrás desse material. Hoje eu e minha banda temos ambos, mais experiência, e ainda fiz alguns contatos interessantes na Europa.”

É admirável o projeto que o Labbra elaborou para conseguir um espaço no cenário europeu concorridíssimo, assim como a aposta em um mercado musical desfigurado pelos downloads ilegais de música digital e pela mudança completa nos conceitos de comercialização de arte no século XXI.

As músicas gravadas em um estúdio simples no interior do Paraná revelam que a banda é ousada nas composições, absorvendo bastante as principais bandas do metal progressivo, mesclando agressividade com versatilidade técnica, como nas boas “No Orgasm” e “Programmed Failure”. Com um bom produtor – de preferência sueco -, a banda pode decolar em um subgênero complicado como o prog metal.

Os paulistas do SupreMa também estão fase do esforço máximo, proporcionalmente à altura dos sonhos de ver o trabalho reconhecido. “Traumatic Scenes” é o primeiro CD do quarteto, que também envereda pelo metal progressivo baseado na trilha aberta pelo Dream Theater, ainda que haja ecos de bandas europeias em suas influências.

Sem medir o tamanho do esforço, está tocando bastante e deve encarar em breve shows no Nordeste, após datas no interior de São Paulo ao lado dos santistas do Shadowside, que ainda saboreiam os bons resultados da turnê conjunta com Helloween e Gamma Ray pela Europa no começo do ano.

É mais do que certo que o SupreMa vai seguir os passos dos amigos do Shadowside em breve, até mesmo porque o estilo de som que faz agrada às plateias de países como França, Alemanha, Itália e Grécia. O primeiro passo já foi dado, com a assinatura de um contrato de distribuição com a boa gravadora alemã Power Prog, que também tem em seu elenco bandas brasileiras como Rygel, Age f Artemis, Maestrick e Lothloryen. Também fechou contrato com a gravadora norte-americana Nightmare Records.

“Não adianta nada você ter um contrato com uma gravadora e não saber aproveitar o trabalho com a gravadora, não é uma coisa que anda no piloto automático. Eles te abrem portas, mas você precisa saber aproveitar e saber investir tempo e dinheiro no lugar e na hora certa. O bom é que temos uma boa autonomia com eles, e podemos sugerir muitas ações de marketing e imprensa”, disse Douglas Jen, guitarrista do SupreMa, em entrevista ao site Stay Rock Advertising.

E  Maestrick, no momento, parece ser a maior aposta entre as bandas nacionais de heavy metal para seguir muito em breve os passos do Shadowside. A banda de São José do Rio Preto é mais uma que mergulhou no prog metal, mas de uma maneira diferente: seu primeiro álbum, também distribuído na Europa, faz uma mistura bem mais radical de elementos brasileiros com o progressivo, indo além dos bem-sucedidos experimentos do Angra nos primórdios, nos álbuns “Angels Cry” e “Holy Land”.

“É justamente esse diferencial que as bandas brasileiras precisam apresentar para um público que recebe toneladas de informação musical do mundo inteiro, e principalmente da Europa”, diz Rafael Bittencourt, guitarrista do Angra, em recente depoimento ao Combate Rock. “Acredito que  Angra teve muito boa aceitação pela ousadia de acrescentar elementos culturais brasileiros a um ritmo que não é naturalmente brasileiro. Competência e criatividade muitas bandas brasileiras têm de sobra.”

O Lothloryen é um exemplo de como é possível fazer algo diferente, ainda que não seja original. Heavy metal com fortes influências do folk e do progressivo, escapou da tendência de clonar bandas importantes do subgênero, como Skyclad (Inglaterra), Eluveitie (Suíça), Finntroll (Finlândia), Ensiferum (Finlândia). Havia a predominância do folk metal de seu início de carreira, que foi sendo amenizada com o tempo. Mais madura e progressiva, chamou a atenção dos europeus pela versatilidade e pela qualidade das músicas e letras.Foi o suficiente para embarcar em sua primeira turnê europeia entre maio e junho passados. É um dos grandes nomes do metal nacional da atualidade.

Os gaúchos do Hibria optaram pelo outro lado do mundo. Sucesso no Japão há quatro anos, a banda é considerada grande por lá, vendendo mais do que gigantes do metal, como Helloween, Gamma Ray, Testament e Anthrax, rivalizando até mesmo com Bon Jovi e não ficando muito atrás do Metallica. Já fez algumas turnês bem-sucedidas por lá e seu novo álbum, “Silent Revenge”, que foi lançado mundialmente nesta semana, liderou as listas de pré-venda de lojas virtuais japonesas em junho e começo de julho. É capaz de lotar casas de médio porte em várias cidades do Japão, mas ainda pena para obter o mesmo resultado no Brasil.

A banda gaúcha Hibria

Se as coisas começam a dar certo para algumas bandas no exterior para a maioria isso ainda é uma realidade distante. Ainda que haja qualidade e bom material, é necessário algo a mais para ao menos chamar a atenção de jornalistas e responsáveis por gravadoras no exterior. E é preciso, pelo jeito, algo muito a mais para chamar a atenção dos roqueiros brasileiros.

Em maio Shadowside e SupreMa mal conseguiram levar 30o pessoas ao Via Marquês, em São Paulo. Nervosa e Bioface, fazendo a abertura para o Ratos de Porão em São Bernardo do Capo, em junho, levaram um pouco mais de gente, mas ainda assim bem abaixo do que o evento merecia – e as bandas mereciam.

A Europa pode ser uma opção, mas não necessariamente uma solução. Bandas, empresários e promotores de shows precisam encontrar logo respostas e ideias diferentes para trazer  público de volta aos shows. Os cariocas do Matanza, que colocaram mais de 3 mil pessoas em uma casa de shows pouco conhecida na zona leste de São Paulo em junho, podem servir de exemplo, como já sugeriu nesta semana o Combate Rock.

Falta esforço dos músicos? Não. Falta qualidade? Não. Então porque o roqueiro brasileiro abandonou as bandas brasileiras? Cada banda terá de descobrir as respostas por si mesmas. Acho que o Jimm London e seus companheiros do Matanza podem ganhar um bom dinheiro a partir de agora dando consultoria…