EMI resgata o filme 'Magical Mystery Tour', dos Beatles

Estadão

17 Outubro 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

O especial de TV “Magical Mystery Tour”, dos Beatles, levado ao ar na Inglaterra em dezembro de 1967, se tornou um marco na história da música não por suas qualidades: foi “comemorado” por parte da imprensa britânica como o primeiro fracasso da história do quarteto.

Para alguns críticos, o filme era ruim, mal dirigido por Paul McCartney e pouco inspirado em relação às canções – que se viriam a ser reunidas em um álbum de mesmo nome lançado no começo de 1968 nos Estados Unidos.

Os detratores estavam felizes porque “Magical Mystery Tour” mostrou que os Beatles não eram invencíveis e perfeitos, também erravam – e feio – quando resolviam “inventar” demais.

É claro que a derrapada não foi o suficiente para macular a imgaem da melhor banda de rock que já existiu, mas mostrava que o quarteto era falível e que entrava em uma fase de profundas mudanças, principalmente depois da morte do empresário Brian Epstein, em meados de 1967.

É consenso que os Beatles estavam cada vez mais independentes do então gerente de tudo, mas também é quase unânime entre os especialistas que Epstein jamais teria permitido que o projeto “Magical Mystery Tour” fosse levado adiante – ou melhor, se não conseguisse impedir, ao menos protestaria bastante.

“Magical Mystery Tour” está de volta ao mercado, assim como ocorreu com “Yellow Submarine” tempos atrás. Estará disponível em DVD e Blu-ray, e, no exterior, em uma edição especial de box de luxo. A edição de luxo inclui o DVD e o Blu-ray, assim como um livro de 60 páginas com informações, fotografias e documentos da produção, e uma reprodução fiel em vinil 7” do EP duplo (mono) que contém as seis músicas que foram gravadas para o filme, originalmente publicadas no Reino Unido para complementar o lançamento do filme em 1967.

 A  Apple Films restaurou totalmente o filme clássico, há muito tempo fora de catálogo, com uma trilha sonora remixada (5.1 e estéreo) e conteúdos especiais.   

A restauração do “Magical Mystery Tour” foi supervisionada por Paul Rutan Jr. da Eque Inc., a mesma empresa que cuidou da aclamada restauração de “Yellow Submarine”. O trabalho de trilha sonora foi feito no Abbey Road Studios por Sam Okell e Giles Martin.

Todos os formatos contêm uma série de conteúdos especiais, como imagens inéditas. Há entrevistas recém-filmadas com Paul McCartney, Ringo Starr e outros membros do elenco do filme e da produção, bem como comentários em áudio do diretor gravado por Paul.

Projeto ambicioso

O projeto foi uma tentativa de McCartney de tirar os Beatles da letargia após a morte do empresário. A ideia era fazer um road movie misturando a ingenuidade e o humor de “Help!”, de 1965, com algumas pitadas de cinema de vanguarda (inspiração em Jean-Luc Godard, cineasta francês), mas tudo como se fosse um documentário sobre uma trupe maluca de artistas  em viagem pela Inglaterra.

Em setembro de 1967, os Beatles carregaram uma equipe de filmagem em um ônibus junto com amigos, familiares e elenco e se dirigiram para o oeste na A30 fora de Londres para fazer seu terceiro filme. “Paul disse ‘olha, eu tenho essa idéia’ e nós dissemos ‘Ótimo!’ e tudo que ele tinha era esse círculo e um pequeno ponto na parte superior – que é de onde nós começamos”, explica o Ringo em entrevista para o lançamento especial.

“Não era o tipo de coisa onde você poderia dizer ‘Senhoras e Senhores, o que vocês estão prestes a ver é o produto de nossa imaginação e, acredite em mim, neste momento eles estão muito vivos”, diz Paul nos extras. O filme segue uma narrativa solta e apresenta seis novas canções á época: “Magical Mystery Tour”, “The Fool On The Hill”, “I Am The Walrus”, “Flying”, “Blue Jay Way” e “Your Mother Should Know”.

O elenco era composto por atores tarimbados e prestigiados non teatro londrino, além de artistas de circo. Participaram da fita  Ivor Cutler, Victor Spinetti, Jessie Robins, Nat Jackley, Derek Royle e o engraçado Bonzo Dog Doo Dah Band.

Embora o filme de 53 minutos tenha sido filmado em cores, estreou na televisão britânica em preto e branco. Transmitido pela BBC1 às 20h35 no Boxing Day, o filme imediatamente atraiu controvérsias generalizadas e os meios de comunicação se indignaram. “Como eles ousam?”, eles gritaram, “Eles não são diretores de cinema! Quem eles pensam que são?”, chegaram a bradar críticos de cinema em progrmas de TV da BBC. 

O quarteto acusou o golpe. diante das críticas pesadas e generalizadas, o filme nunca foi veiculado nos Estados Unidos teve distribuição foi muito limitada no resto do mundo. 

Não se trata evidentemente da melhor criação dos Beatles. Até mesmo as músicas da trilha sonora original – que no álbum tiveram o acréscimo de outras faixas lançadas apenas em compacto – não tinham o mesmo brilho da maior parte das músicas que integravam o catálogo do grupo.

Seria mesmo uma tarefa bem complicada manter a qualidade do travalho que sucederia o magistral “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, simplesmente o melhor álbum de todos os tempos para a maioria dos críticos e fãs, e que tinha sido lançado havia apenas cinco meses antes.

Seja como for, a maioria das críticas tinha procedência. O filme era caótico, com uma direção praticamente inexistente e roteiro incompreensível – isso nas partes que tinha roteiro. Por conta disso, a edição ficou prejudicada, embora o esforço para dar sentido àquelas muitas horas de filmagem seja louvável.

Mesmo com cenas clássicas, como o garçom John Lennon usando uma pá para servir macarrão a uma senhora obesa, e a da escada onde os Beatles, vestidos de branco, interpretam “Your Mother Should Know”, o filme “Magical Mystery Tour” é apenas uma curiosidade na vitoriosa carreira do grupo. Perde de longe em relevância para “Yellow Submarine” e mesmo o documentário “Let It Be”, de 1970.  Não é sempre que se pode testemunhar os Beatles pisando na bola, ainda que de leve.

Mais conteúdo sobre:

Beatles