Cresce o boicote ao empresário que organizou o Metal Open Air

Estadão

16 Outubro 2012 | 06h46

Marcelo Moreira

A repercussão sobre a suposta criação de uma nova empresa de entretenimento por parte dos organizadores do fracassado Metal Open Air, no Maranhão, para substituir a atual chegou, ou está em via de chegar, aos ouvidos de promotores públicos paulistas.

Segundo o Combate Rock apurou, na última semana um grupo de pessoas que sofreram prejuízos com o festival maranhense, ocorrido em abril, procurou o Ministério Público do Estado de São Paulo pedindo uma investigação a respeito da empresa Indestructible Entretenimento, que teria entre seus sócios Felipe Negri.

O pedido de investigação informa que a empresa estaria assumindo os negócios da Negri Concerts, uma das responsáveis por organizar o Metal Open Air e que sofre vários processos no país inteiro. O Ministério Público paulista ainda não confirmou qualquer investigação neste sentido ou mesmo ter recebido o pedido.

Muitos consumidores lesados em São Luís (MA) usaram as redes sociais para denunciar a suposta manobra da Negri Concerts para continuar no mercado e, eventualmente, deixar os problemas jurídicos na antiga empresa, que se tornaria, então, “podre”, ou seja, desidratada e sem condições de honrar qualquer compromisso.

A primeira consequência foi o cancelamento do show do trio alemão Destruction, marcado para São Paulo em dezembro. A organização do evento tinha o envolvimento da Indestructible. Em seguida, outro grupo de consumidores lesados entrou em contato com várias bandas que estiveram em São Luís – tocando ou não –, que foram informadas sobre a suposta manobra.

Em um blog de fãs de heavy metal, algumas pessoas assumem claramente que o objetivo da mobilização via internet pretende boicotar todos os eventos produzidos pela Negri/Indestructible até que Felipe Negri saia definitivamente do mercado.

Banner em inglês alertando sobre a suposta manobra envolvendo a Negri Concerts

O empresário tem evitado declarações públicas e entrevistas, mas decidiu se manifestar apenas por meio de nota oficial publicada no site da Negri Concerts. Ele nega que esta empresa esteja falida ou encerrada e rechaça qualquer acusação de manobra para escapar da Justiça.

“A criação da empresa Indestructible Entretenimento não é e nem foi um artifício para ‘encobrir’ atividades da Negri Concerts”, escreve Felipe Negri. “A Indestructible foi criada para ser uma empresa de booking, em que investidores entram com a parte financeira e eu trabalho apenas como booker (agendando shows). A Negri Concerts continua e continuará trabalhando normalmente, e, isso não é uma afronta aos fãs nem a ninguém, é apenas a verdade dos fatos. Após o Metal Open Air, a empresa foi responsável pela vinda das bandas Therion, Fear Factory e Coal Chamber e todos os shows aconteceram normalmente, sem nenhum tipo de problema aos consumidores desses espetáculos. Sei dos problemas que centenas de pessoas enfrentaram ao ir ao Metal Open Air, e infelizmente eu ainda não posso comentar nada sobre isso, pois o assunto corre em Justiça e estou não só orientado a ainda não comentar, como não quero falar nada para não soar uma briga cega entre promotores.”

Grande fiasco 

Anunciado com muita pompa em novembro de 2011 como o maior festival de heavy metal da América do Sul, o Metal Open Air apresentou problemas pelo menos três meses antes de ser realizado, em abril de 2012. O Combate Rock alertou à época, ao lado de outros meios de comunicação, ue a dimensão do evento suscitava muitas dúvidas acerca da capacidade financeira e logística das duas empresas organizadoras para viabilizar o evento.

As duas empresas organizadoras, Negri e Lamparina Produções, de São Luís, tiveram problemas já a partir de janeiro para viabilizar financeiramente o evento e enfrentaram problemas para pagar fornecedores e artistas.

Uma semana antes do festival, várias bandas iniciaram a onda de cancelamentos. Das 43 bandas escaladas, mais da metade cancelou sua apresentação. Eram mais de 2o atrações internacionais, entre elas Megadeth, Saxon, Blind Guardian, Venom e muitas outras, Dos grandes nomes, apenas o Megadeth subiu ao palco, e para um show curto, de menos de uma hora.

A infraestrutura de palco era a mais precária possível, segundo músicos brasileiros que tentaram subir ao palco – muitos dos artistas nacionais sequer viajaram ao Maranhão por falta de pagamento, passagens aéreas ou garantias financeiras.

O público foi muito maltratado. O local dos shows era inadequado, longe do centro de São Luís e sem transporte público satisfatório. Área frequente de realização de feiras e exposições agrícolas e de gado, tinha infraestrutura quase inexistente, como falta de banheiros, de chuveiros e de até de bebedouros.

Para piorar, os fãs que pagaram muito caro para acampar no local foram “instalados” em estábulos sujos, com resquícios e forte odor de fezes de cavalos e bois.

Os transtornos foram tantos que o festival, programado para três dias, acabou cancelado na metade do segundo dia, em meio a troca de acusações entre os organizadores.

O Procon maranhense se instalou no local desde o primeiro dia para atender as queixas por conta do evento fracassado e abriu diversos processos administrativos contra as empresas responsáveis, assim como várias queixas foram encaminhadas ao Ministério Público para abertura do processos judiciais.

Enquanto isso, a Negri continuou operando, especialmente em São Paulo, onde organizou shows do Coal Chamber e do Fear Factory sem incidentes.

Até então são as centenas de denúncias de internautas de que muitas notificações judiciais nunca foram entregues porque os oficiais de Justiça ou não encontram os endereços das empresas que estão processadas ou, quando as empresas são localizadas, os acusados citados nunca estão no local para receber pessoalmente a intimação judicial.

Ainda não se tem notícia sobre qualquer sentença contra as empresas Negri e Lamparina, ou mesmo de indenização que foi paga a qualquer um dos consumidores lesados.

Linchamento e perseguição

Músicos e fãs que estiveram em São Luís não têm dúvidas de que Felipe Negri e seus sócios no Metal Open Air são picaretas e agiram com má-fé. Diante da fartura de depoimentos e evidências, essa hipótese não pode ser descartada.

É evidente que, com um histórico desses, qualquer evento patrocinado por tal empresário tem de ser visto com muitas ressalvas e reservas – com toda a razão.

No entanto, o que se viu nas última semanas foi uma agressiva campanha contra a Indestructible por meio de e-mails e redes sociais, em um movimento que beirou a demonização.  Não se trata de negar a gravidade dos fatos ocorridos em São Luís dos grandes prejuízos aos consumidores. A quantidade problemas, abusos e pataquadas no Metal Open Air suscita punições severas para a no mínimo incompetência demonstrada na organização.

O trio alemão Destruction, que cancelou a apresentação no Brasil após a mobilização de fãs lesados no Metal Open Air

O que incomoda é que já houve uma condenação pública do empresário Felipe Negri, sem que houvesse qualquer conclusão de processos judiciais.

Especialistas em direito cível e direito do consumidor são quase unânimes, ao analisar o caso de São Luís, que os organizadores fatalmente serão condenados a indenizar os lesados e que há indícios de má-fé e até de crime contra a economia popular. O problema é que, enquanto não há sentença, qualquer perseguição por conta disso ganha ares de linchamento moral e público.

Será que o empresário, que ainda não teve sentença declarada, merece ser perseguido a ponto de inviabilizar qualquer negócio no futuro? Até quando essa perseguição vai durar? Até o momento o que se sabe é que houve enorme incompetência no Metal Open Air. Incompetência é motivo para banimento perpétuo do mercado?

O Combate Rock não tem as respostas. Apenas pretende fazer alertas em relação ao perigoso processo de “perseguição”, demonização e linchamento público. A revolta dos fãs lesados e consumidores que sofreram grandes prejuízos – assim como vários fornecedores – é compreensível e as vítimas merecem todo o tipo de solidariedade.

Parece não haver dúvidas a respeito das responsabilidades a respeito das lesões causadas aos consumidores e as condenações por danos morais são consideradas certas. Nada mais justo. Daí a dizer que houve crime, má-fé e deliberada intenção de prejudicar fãs e artistas vai uma distância muito grande.

Não se trata aqui de defender o empresário. As responsabilidades dele estão comprovadas de várias formas. Trata-se apenas de alertar para um perigoso movimento de satanização e perseguição a alguém que errou bastante.

Mas será que, neste momento, é caso para banimento perpétuo e perseguição implacável sem que haja a comprovação de crime – ao menos por enquanto? Será esse banimento não é um tiro no pé, ao inviabilizar qualquer forma de arrecadação de recursos para eventuais indenizações determinadas pela Justiça?