A dignidade do músico no cenário nacional

Estadão

30 Outubro 2012 | 06h53

Henrique Papatella – músico da banda Scarcéus

O artista é um misto do que esperam dele, um pouco da realidade em que vive, um pouco do que ele deseja ser e um pouco do que ele realmente é! Na verdade, nós músicos estamos à distância de uma canção para realizarmos todos os nossos sonhos…  Algo que vá fazer a luta de toda uma vida valer a pena…
 
Temos que nos agarrar a isso, pois senão tudo estará perdido para sempre! Se vamos ficar famosos ou ricos, é outra história. Se você conseguir fazer com que suas ideias alcancem as pessoas, a saga terá valido a pena. Sejam mil ou 1 milhão de fãs, não importa…
 
Seu som tem que convencê-los! A única (grande) diferença causada pelo número de admiradores é sua conta bancária… rs. Pois a inteiração com público satisfaz do mesmo jeito e traz sentido à vida de quem lida nessa seara, seja ele de que tamanho for.
 
Não que sejam justificáveis todos os ‘chiliques’ de artistas famosos, mas as pessoas em geral não tem a menor ideia do que seus ídolos passam e passaram para chegar onde estão…
 
 Tanto os astros super conhecidos quanto os meros mortais (como este que vos fala…) são submetidos a um massacre psicológico permanente e é preciso ter estômago para ‘segurar a peteca’! Todo dia é uma rasteira, uma bola nas costas, uma picaretagem…
 
O meio musical e tudo que o cerca é insano e fugaz. O ‘público’ te eleva a alturas inimagináveis, mas também sabe ser cruel… Hoje entendo (embora não concorde!) porque ‘neguinho’ joga TV pela janela de hotel ou porque às vezes reage mal a determinadas interpelações…
 
Quando tudo vai bem o que não faltam são sanguessugas, tapinhas nas costas e os ‘papagaios de pirata’ para puxar seu saco! Mas quando o ‘bicho pega’ é que você sabe com quem pode contar e são poucos… Acreditem, é quase um clichê, mas por trás dos personagens existem pessoas. Se o sujeito ‘chegou lá’ artisticamente, por pior que possa parecer, ele deve ter merecido.
 
Você, quando opta pela carreira musical, não imagina que a música é apenas a ponta do iceberg… Se realmente quer viver do seu som, aprenda a ser empresário, relações públicas, a se fazer de bobo, cego, surdo, burro… Infelizmente, às vezes a música é o que menos importa e quando você percebe isso a decepção é indescritível! Mas a gente, quando quer muito, se adapta! Não totalmente…
 
 Mas dá pra ir levando. Só não sei até onde, até quando… Se você, em algum momento, não tiver a absoluta certeza de que seu caminho é a carreira musical, nem entre nesse jogo. Para ter algumas horas de felicidade no palco você tem anos de ‘pancadaria’ fora dele.
 
Mas será que vale a pena? VALE! Qualquer sofrimento desaparece quando as pessoas estão cantando suas músicas nos shows. É por isso que ainda estamos aqui! Quando alguém se dirige a você e diz que aquilo que você escreveu (no banheiro da sua casa…) mudou a vida dele num momento de revés, você percebe o sentido de sua própria existência. É mágico, lindo!
 
 Às vezes crianças, idosos, pessoas que eu jamais imaginaria atingir me surpreendem mostrando que entenderam meu propósito e que minha obra, da maneira mais improvável, lhes foi útil… Nessas horas a vida se enche de luz e nos municiamos da energia necessária para seguir em frente.
 
Nesse desfecho me permito colocar em voga algumas questões mais pessoais… Afirmo que procurei descrever fielmente todas as impressões sobre tudo o que minha experiência na música me ofereceu até hoje. É difícil ser totalmente isento quando se está no olho do furacão…
 
Mas apesar de toda a dificuldade que é levar uma vida musical digna, sendo um artista de ‘poprock’ (inclusive o próprio termo é inconclusivo…) na atual condição em que o mercado musical brasileiro se encontra, este artista acaba encontrando, bem lá no fundo, resquícios de otimismo…
 
Quem não teve o sonho de mudar o mundo com sua música que me atire a primeira pedra! O resumo da ópera alguém já disse em algum lugar: Nós não precisamos de muito… Nós precisamos, nós merecemos um pouco MAIS!

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