Mundo melhor?

Estadão

11 Março 2011 | 06h00

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Elias sofre bullying no colégio e Christian acaba de chegar à cidade após perder a mãe, vítima de câncer. Centrado na amizade entre os dois garotos, estreia hoje Em Um Mundo Melhor, vencedor do Oscar e do Globo de Ouro na categoria de melhor filme em língua estrangeira.

A narrativa alterna esses momentos, na Dinamarca, e outros num vilarejo na África, onde um médico, pai de Elias, cuida de mulheres violentadas pelo chefe de uma gangue local. A violência, e, mais especificamente, a legitimidade do revide, é o que parece discutir a diretora Susanne Bier, de Brothers (2004) e Depois do Casamento (2006).

O caráter sociológico do tema traz riscos. Muita vezes, para comprovar a ‘tese’, o diretor, ou roteirista, constrói personagens simplificados, de complexidade reduzida. São tipos ideais, afinal, e não seres reais. É o mesmo desafio que encaram, bem ou mal, Todd Solondz, de Felicidade, e o também dinamarquês Lars Von Trier, colega de Susanne no Dogma 95, movimento que prega o realismo cinematográfico.


Mas Susanne não desliza nesse ponto. Seus personagens têm doses mais ou menos equivalentes de compaixão, mesquinhez, bom-mocismo e maldade. São contraditórios. Fiel a seu juramento, o médico não nega tratamento ao líder da gangue, que lhe é trazido com uma infecção letal. Mas é conivente com um dos atos mais violentos da trama ao encarar o fato de que nada pode transformar a essência daquele homem.

O desfecho do filme, no entanto, pacifica, com o perdão do termo, a discussão. Os garotos têm sua ‘lição de vida’. Compreendem ‘as consequências de seus atos’. Afinal, são muito amados pelos pais, em suas elegantes casas à beira do lago. Só um arremate como esse pode explicar, de alguma forma, o porquê de um filme originalmente intitulado ‘Vingança’ ganhar por aqui a esperançosa alcunha de Em Um Mundo Melhor. Apesar do desfecho, Susanne Bier não nos oferece sábias conclusões. E não indica o caminho para esse mundo melhor. Carolina Arantes