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Uma plateia non grata para ‘A Tragédia Latino-Americana’
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Leandro Nunes

18 Março 2016 | 16h24

Peter Brook já dizia. Não, dessa vez ele não terá voz por aqui. Nem ele, nem qualquer um da Europa ou norte-América. É a vez da Latino-América dizer de si para si. A montagem de Felipe Hirsch reúne com os Ultralíricos um instante chamado A Tragédia Latino-Americana. Diz-se instante não com ironia  salvo as mais de três horas e meia de duração do espetáculo  mas do ato de criar que também é um instante.

Se há algo de  nobre na criação, ela precisa vir acompanhada de certa indiferença à sujeira, às baixas castas. Não há algo mais baixo nos trópicos  do humano que suas emoções. Aristóteles queria. Mas não será nesse texto que ele vai querer. Os corpos bronzeados sabem como o sol tosta suas próprias culpas importadas e como a nacionalidade brasileira se assemelha ao saboroso melão que encanta a doce menina. Em sua própria ambição, A Tragédia coloca-se em um andar precário. O DNA que singulariza o teatro latino-americano sofreu intervenção, veio contaminado. Os primeiros acontecimentos teatrais em terras brasilis negaram oferecer uma experiência terrena mas procuraram anunciar a eternidade celeste e serviram para o jogo sujo da religião. 

A alfabetização estética foi, então, feita de ilusão transcendental. Nada relacionado, nem friccionado no real. O perigoso julgamento cristão engrossou de palha a nossa dramaturgia. A história recente clama, bamba em suas tábuas, por apoios que permitam reparação doméstica do País. Nossos triplex são palácios por dentro mas palafitas por fora. E a escritura apresentada só atesta a nossa ignorância congênita. Burrice de nascença, mesmo. Bem, Caminha diria que. Ué, mas aqui, hoje, ele também não poderá se pronunciar.

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O acabou chorare de Caco Ciocler

Bem, nada disso ainda serve para perceber A Tragédia porque é complexo conceber uma percepção da Latino-América, já que as perspectiva que se oferecem se localizam quase sempre no horizonte europeu. No palco, o exercício do encontro dos atores com a seleção de provocações literárias torna a cena um exercício de improviso – a cena, não os atores. Também não se trata de improviso como sinônimo de performance do despreparo, vide a excelente memória de Javier Drolas.  

O conjunto de escolhas faz dos signos plataformas modulares que circulam e transitam por sobre águas calmas. A seleção de textos exibe conexões que não se encaixam, pelo contrário, tendem à desconexão. Nada se completa, nada se cola, tudo é modular. A visualidade foge à ilusão até cinismo histórico da origem do isopor. Blocos fugazes de guerra concentrada.

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No teatro em geral, existe um certo equívoco, talvez seja aquela maldita unidade ou a sempre necessidade de encontrar correspondência/harmonia no pacote que é emitido como sentido. É isso ou uma ignorância aos mecanismos de recepção do próprio corpo. Isso sem falar na incapacidade de amalgamar elementos e na desfaçatez da crítica de tê-los que enumerar, como um monstro do Frankenstein. Como fazer de um feixe de partículas, variações de um mesmo DNA? Não é necessário resposta, mas a assinatura estética de Hirsch preenche de uma tinta diversa aquele simbólico momento histórico. Sua Tragédia não se trata de um feixe, nem do DNA inteiro. Trata-se da inserção de uma nova ponte na hélice genética que compõe nossa identidade. O bioquímico alemão Johann Friedrich Miescher teria muito o que dizer aqui. Que pena.

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A ausência de ilusão causa abstinência. Aqui, muitas pedras-pomes

Falando de histórico, de vez em quando também é sempre bom olhar no retrovisor. Em 1967, o teatro paulistano trazia na pele a força de ser contracultura. A Tropicália não significava só Caetano e Gil (como se isso fosse pouco) mas a cena cultural se inscrevia e caminhava como ARTE, sem distinções de linguagem. O autodescobrimento que O Rei da Vela proporcionou por meio das canoas de Zé Celso revelou um Brasil cru das lentes norte-americanas. A insistência de Renato Borghi em montar o texto era sintoma da inquietação de muitos artistas e da urgência do próprio tempo. Não significava emoldurar a realidade no palco, mas de fruir o presente para longe do fascismo vigente.

Para todo teatro de seu tempo, existe um público situado no mesmo tempo-espaço. No lado dos artistas, nossas frentes estão muito bem representadas. A grande diversidade de espetáculos encaixotados – viciados em um patrocínio que sofre de baixa autoestima ideológica  cumprem temporadas cada vez mais curtas. Ao público cabe reproduzir a culpa (“não gosto de teatro”, “não entendo de teatro) tão bem semeada no discurso da população. A falha aqui é discernir espetáculo de projeto histórico. O erro foi o teatro misturar, no mesmo lugar, o tempo presente de sua experiência com tempo urgente de suas contas a pagar. É o perigo dourado de transformar ossos em ouro, como a paródia A Nova Califórnia, presente na Tragédia. Nele, Magali Biff faz um desbunde ao horror.

Bem, agora mesmo, a política nacional acumula notícias que esse texto não dará conta de citar. São os mesmo blocos concentrados de substância de guerra se deslocando no jogo do poder. Do lado de cá, na sociedade, eles se autoexcluem com os carimbos “100 % Negro”, “100% Ateu”, “100% Gay”, “100% Vegano” e tantos outros. A necessidade de negar origens firma-se como instinto à sobrevivência. Se O Rei da Vela do Oficina desvencilhou-se desse emaranhado sólido ao encontro de seu próprio momento, A Tragédia Latino-Americana tem força para acrescentar, na linha histórica, mais uma pedra fundamental ao famigerado Brasil.

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