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As informações e opiniões expressas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Um desbunde para abrir o apetite em ‘O Confete da Índia’

Leandro Nunes

28 março 2016 | 10:30

CURITIBA – Alimentos sempre evocam emoções e ativam lugares especiais na memória de cada pessoa. Esse poder é multiplicado quando se trata de um ajuntamento de pessoas, região ou país. Uma sociedade é o que come e come o que é. O Brasil e suas regiões reúne retratos pintados nas particularidades da alimentação (quem produz o alimento, quem prepara e quem come). O duplo arroz-feijão significa para os brasileiros muito mais que uma complementaridade nutricional. Já o feijão preto da feijoada carrega na própria cor e no ferro de sua composição a história da miscigenação no País. Se existe fome no mundo é porque comer é ideologia.

Parece que é dessa ordem a busca de O Confete da Índia, por uma certa justiça social dos alimentos-históricos. Mas o performer André Masseno começa longe disso, mais atrás, na investigação de um corpo masculino desfigurado vestido em peças femininas. Aqui, calcinha e vestidos exalam desconforto por não calçarem bem na carne do homem. Ou o contrário. Munido dessa imagem, ele invoca uma movimentação vigorosa e desmanda no histórica significação de objetos.

Seja por uma sidra barata para o ano novo ou uma lata de milho, as ações tem suporte em uma trilha sonora que evoca o período de contracultura no Brasil. A índia presente no título logo encontra correspondência com “seus cabelos nos ombros caídos…”. Com a boca cheia de milho, André se encarrega de não dizer sobre a questão indígena em sua histórica urgência. Bem como no mergulho em uma marmita contendo arroz e feijão, no duplo que alimenta uma nação e seus fascismos e que preenche, invisível, a tola polarização atual do Brasil.

O corpo odara de André Masseno

O corpo odara de André Masseno

A visceralidade de O Confete da Índia percebe questões que respondem ao machismo e às opressões de gênero. O preparo do café envolve a peça feminina e o rosto coberto ao urinar. Mais que proibir atos, o ódio deseja desfigurar indivíduos ao arrancar rostos e generalizar as personalidade de vítimas.

Todo esse material se apresenta como um cálice a ser tomado, no entanto poderiam ser degustados na realidade da palavra. Mastigar e cuspir alimentos, dançar vigorosamente e urinar no palco foram ações apresentadas para uma plateia. Ainda que o conceito de performance não exige a presença física de plateia para ser concebida, há questões elementares na recepção da audiência.

O público pode rir das coreografias, das canções, tal como ser livre para reagir com nojo diante das escatologias. Tudo isso justifica a presença física de uma plateia, ou quem sabe em uma vídeo performance. As reações serão possivelmente as mesmas. Mas e se fosse oferecido ao público uma xícara de café? Aqui não haveria desvantagem para a vídeo performance. Não haveria alguém salivando para aceitar a bebida quente? E se não, se a pessoa negasse? Nesse momento, como mágica uma relação poderia surgir, mais que reagir com recusa/riso das ações. Aliás, riso nervoso, desequilibrado, que deseja receber interlocução com a obra, por um campo mais transgressor, longe da tradicional expectação. Certamente há públicos e públicos, mas como transformar diferentes plateias em plateias indispensáveis?

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