‘Paquiderme’ camufla a si por não encontrar a origem do próprio silêncio

‘Paquiderme’ camufla a si por não encontrar a origem do próprio silêncio

Leandro Nunes

23 Agosto 2017 | 17h13

Não é estranho que em tempos de polarização política, os assaltos criativos recebam a rédea que lhes é necessária para não entregar a própria carne ao zoológico inteiro. Essa astúcia garante, certamente, alguma sobrevida, mas quando a maior habilidade de sobrevivência é ganhar tempo, o risco de se encurralar sozinho é grande.

Paquiderme não fala de outro, senão de si, para criar o próprio conflito. Até aí, nenhum problema, se você é o dramaturgo. Conversar com a própria voz é um exercício corriqueiro, até pueril. O texto de Daniel Farias, foi originalmente criado para dois atores e ganhou versão solo de Daniel Alvim.

Não por isso, a ilusão de evocar diferentes vozes no palco não é nova, mesmo quando uma peça requeira a força de uma multidão em cena, como a sedução de um assassinato, que se insinua nessa relação.

Foto: Marcelo Villas Boas

No entendimento da cena, entretanto, a direção e texto anulam-se mutualmente: a força masculina que rege a dramaturgia é enfraquecida antes mesmo que a palavra seja acionada, na apresentação da luz e cenografia. Há um amparo visual-sonoro que antecipa a revelação dessa identidade.

Em contra fluxo, o perfil do macho cria um estranho apoio na palavra para construir seu discurso pela via verbal, com detalhes – do passado e do presente, ou provindas de sensações. O que deveria sublimar como recurso mental catártico, segue por nublar o corpo de advérbios de modo e memórias que camuflam as emendas da construção.

Foto: Marcelo Villas Boas

Tudo bem que ele esteja diante do tribunal, é o que parece, mas a história narrada a seguir só apresenta antagonismo na forma, anulando qualquer chance de articulação para além de outros elementos na construção do texto teatral.

No limite da suposição, o compromisso do homem com alguma possível verdade-nada-além-da-verdade foi levado a sério, com o direito de  uma licença poética para que a narrativa seja transmitida de modo não linear. Se reordenar as falas, o feitiço é quebrado, pois falta falseamento ou dissimulação de ideias como alternativa ao embaralhamento da estrutura.

Ou seja, não há para onde correr. Cabe ao ator, acuado, se desmembrar da direção e texto, estes inócuos em fornecer apoio e a energização subjetiva inerente capaz de chamar o público ao local – silencioso – de nasce a pulsão de morte do personagem.

Ainda há que se observar, em parte do que costumam chamar de “nova dramaturgia contemporânea”, textos de neófitos que carregam certa obsessão por definir uma também chamada “voz particular”. Este modelo, surge confundido como produto de articulação formal + experiência pessoal, e em cena, quase sempre, sobra à plateia o desafio de se estreitar por um emaranhado de métodos e como recompensa desembarcar em um universo com anemia do real.