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MITsp: O timbre da opressão em ‘Avant Marche’
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Leandro Nunes

16 Março 2017 | 17h29

Não é possível imaginar uma cena com fronteiras tão borradas quanto a abertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Isso não quer dizer apenas que o espetáculo Avant, Marche! laceou por si só o que ocorreu ontem na quarta edição da MIT. A noite de ontem, 14, se transformou numa grande ágora.

A montagem já carrega em sua assinatura um trilha bastante livre com um destino desconhecido e sem tanta pressa de chegar.

Os caminhos apontados pelos artistas são tão plurais quanto as carreiras dos belgas Alain Platel e Frank Van Laecke, o primeiro formado em terapia educacional e diretor autodidata, tendo assinado dezenas de produções dentro e fora da companhia les ballets C de la B, e o segundo com uma carreira internacional como escritor e autor, dirigindo peças, óperas, musicais e programas de televisão. Já Steven Prengels, a cargo da direção musical já passou grandes orquestras, teatro, dança, cinema e artes visuais.

Avante, marche! Fotos Phile Deprez (7)

Foto: Phile Deprez

Mas por que, entre tantas linguagens, o teatro? Talvez essa seja a questão menos interessante a se fazer. Contudo, eles se amparam em um texto teatral: O Homem com a Flor na Boca, do dramaturgo italiano Luigi Pirandello, no qual retrata o drama de um trombonista que, por conta de sua doença, precisa se despedir do seu instrumento musical e se recolher às últimas fileiras da banda.

E ele está lá no palco, dessa vez na figura de um debochado clown que ouve uma gravação da fanfarra para treinar com seus pratos. É por aí, e por ele, que se puxa um fio existencialista, que flerta com o principal fantasma de muitas crises: as instituições.

Outros pontos de inflexão alcançam um clara perda de potência e inadequação de um artista que trabalha/depende conjunto para se revelar, e do seu medo de ser engolido pelo tempo presente por não sustentar a qualidade outrora possuída.

Esse temor ainda faz coro com a solidão de não encontrar pares reais com os quais possa compartilhar sua realidades. Em outras palavras, trata-se de uma opressão forjada pelas ausência de humanidade nas unanimidades, que podem ser institucionais, políticas ou sociais.

Em Avant, Marche! a palavra falada serve tão pouco que os diretores optam por não legendar 100% do que é dito, já que assumiram que a montagem conquistou uma linguagem própria, mais Babel. Por outro ao repetirem as mesmas falas em diferentes idiomas, os intérpretes elencam sua falência universal e a incapacidade de servir como esteio esclarecedor de subjetividades.

Avante, marche! Fotos Phile Deprez (6)

Foto: Phile Deprez

Assim, trabalha-se com uma grande invenção musical que ganha protagonismo como marcha e linguagem. A pequena e desmotivada bandinha marcial ensaia e ensaia às ordens da voz imperativa de um maestro. Como um deus, ele controla e provoca sua pequena colônia de seres menores.

Nesse caso, a música surge como metáfora de opressão, primeiro como linguagem — na exigência de adequada extração de sons dos instrumentos, como expressão comum, marcado pelo rigor performático desse tipo de formação musical que os uniformiza — e como organização social, que desvela episódios de desigualdade, na qual o velho percussionista teme não servir e ser descartado, e machismos expressos na aspecto masculino da banda e do lugar destinado às mulheres. Elas, com seus looks de paetê e os gestos típicos, são parte primordial desse desespero coletivo, até o instante em que trocam de roupas e são aglutinadas pelos uniforme dos músicos.

Mas por assim, dizer, em Avant, Marche! não há espaço para heróis ou justiça. Ao transmitir ideais privados e da ordem dos sentimentos, como o amor, a conexão se torna impossível. Quando uma das mulheres fala ao microfone, seus lábios entortados esvaziam a transparência de suas intenções. No alto e no lado oposto, o percussionista revela sua bela voz, em grande pompa.

Mesmo assim, o clima regular do espetáculo pode não agradar o público que esperava talvez uma abertura explosiva, apoteótica e catártica para a primeira noite de uma mostra internacional de teatro no Theatro Municipal. As cenas que carregam longos silêncios acentuando a insegurança das personagens, e alguns risos, espalhou desatenção na plateia e só diminuiu com a beleza das canções executadas pela extinta (em sobrevida) Banda Sinfônica e com as quentes vaias direcionadas contra os representantes de André Sturm (secretário municipal de Cultura), José Roberto Sadek (secretário de Estado da Cultura) e Roberto Freire (ministro da Cultura), que não compareceram à cerimônia, realizada no Teatro Municipal.

Viva o público”

 

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