‘O Quadro de Todos Juntos’ funda um carrossel macabro no teatro de bonecos brasileiro

‘O Quadro de Todos Juntos’ funda um carrossel macabro no teatro de bonecos brasileiro

Leandro Nunes

15 Agosto 2017 | 12h30

Quando se pensa em Teatro de Bonecos, ou de animação, no Brasil, temos os bem sucedidos exemplos de companhias com espetáculos voltados para o público infantil, como o grupo Giramundo, em Minas e o Sobrevento, em São Paulo.

A força e a continuidade desses trabalhos é parte da defesa justa por um público que não tem tantas influências diretas na produção de obra artística para sua fruição.

Foto: Diego Sá

Mas ao se instalar em uma cisão com essa plateia, os mineiros do grupo Pigmalião Escultura que Mexe criam uma brecha redirecionando a linguagem dos bonecos para o público adulto.

Esse trabalho é confirmado em O Quadro de Todos Juntos – visto recentemente em duas apresentações recentes no Sesc Pinheiros – que se inspira na loucura para falar de estereótipos e complexos familiares.

Ao criar uma fábula animal com porcos, a montagem desenvolve jogos entre pais, filhos, irmãos e avós, de núcleos familiares diferentes entre si. Interessante pensar que a questão feminina parece unir as narrativas como um só eixo, desde a depressão pós-parto, abuso sexual e o machismo.

Nesse sentido, a montagem de 2014 antecipa em muito a discussão atual de gênero e feminismo com elaborado subjetivismo, em São Paulo o tema ganha espaço entre artistas paulistanos por um viés voltado ao protesto social. Na peça dos mineiros, a construção dessa relação está centrada no núcleo familiar tradicional mineiro, como ferida aberta local.

Foto: Diego Sá

Trilha sonora e luz emolduram a encenação que depende da instauração da ilusão para funcionar. Os sons desconexos, sobrepostos criam um canal sonoro que altera o estado de percepção do conjunto. Como um carrossel macabro, as figuras desfilam sem culpa de suas ações e sem medo de espremer suas dores. A barbárie animal encontra coro nos corpos meio humanos.

Contudo, é curioso apontar que a peça não se trata de querer arranhar a realidade com máscaras e bonecos. Com a mesma ousadia com que a companhia transmuta a linguagem com uma temática adulta, a peça usa-se do Teatro de Animação como pretexto para comentar a própria criação, intervindo na ilusão anteriormente estabelecida, em pistas sutis como a revelação de bonecos inanimados, a trilha sonora deslocada da ação, com vozes fragmentadas e desconfortável.

O que se encaminha para a grande cena final é capaz de flertar com um metateatro corajoso e no limite. Mas coragem mesmo só falta aos programadores e produtores locais que ainda não concederam temporadas decentes ( e quem sabe uma mostra) para o Pigmalião nos teatros de São Paulo.

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