Novos Repertórios Curitiba: Como criar uma crise quântica de comunicação

Novos Repertórios Curitiba: Como criar uma crise quântica de comunicação

Leandro Nunes

01 Agosto 2017 | 11h04

Curitiba

A marca mais evidente de um teatro popular é que ele sabe como se comunicar com seu público. Desde muito tempo, o público é um termômetro que costuma falhar.

O desafio desse contato prova, de cara, as qualidades de interação entre a plateia e os artistas, já que estes nunca são os mesmos no acontecimento teatral. Mesmo assim, é muito comum perceber que o modo de interação proposto em mutias encenações pelo Brasil e que se dividem em dois tipos opostos: um discreto, poético, cheio de mistério e quase impessoal; outro direto, pateta, fático e didático.

Foto: Eli Firmeza

Quando é que teremos o meio do caminho?

Ao escolher circular por Física e teorias quânticas, o espetáculo T3, da Súbita Companhia, constrói um caminho difícil por um tema desconhecido de parte dos brasileiros. A inflexão existencial da personagem é incapturável como a própria encenação. As referências que podem ser saborosas para poucos, podem passar despercebidas para a maioria. Nada disso é barreira quando o modo de contar algo deveria ser a principal preocupação.

A solução é recorrer ao humor. Cleydson Nascimento até faz rir, não pelo tema, mas por desdenhar dele. Sua condição quase esquizofrênica oferece diferentes estados e o cômico surge pela aleatoriedade com que constrói suas imagens.

Mesmo assim, esse desdém que solicita o riso não parece tão real, já que a obsessão pelo assunto – a ponto de virar um espetáculo – cria uma certa tensão por parte do espectador “será que não estou entendendo algo?”. Nesse caso, rir passa a ser uma saída para não parecer tão destoante do coletivo. Algo que surge menos espontaneamente e mais remendado aos risos dos outros espectadores.

Foto: Eli Firmeza

Nesse sentido, o texto é o elemento mais hermético diante de uma encenação, trilha e luz que oferecem possibilidades de construção de sentido mais ordeiras. Por vezes, o texto quase bloqueia as oportunidades audiovisuais oferecidas.

De modo paralelo, o espaço passa a se tornar mais parceiro do público do que o próprio ator – quando a peça termina, a deriva pelo espaço é tão mais innteressante!

Em último, até mesmo a performance fica refém da dramaturgia, que soa fetichizada e sem aparente utilidade já que oferece tantos palavras e dados científicos como vocabulário mas não se importa em construir uma conversação com o interlocutor. Esse abandono fica ainda mais visível (ou seria o contrário) na última.

O que precisa estar destacado, talvez, seja um conflito que tenha o mesmo tamanho que a figura em cena. Em alguns momentos surge um rascunho de inadequação ao tempo presente que pode abrir portais ainda mais poderosos que os citados. Essa condição em cena pode ser generosa e criadora de comunhão com uma plateia aturdida por um discurso científico. Na revolta do personagem em estar aprisionado em outro espaço tempo que não o seu, ele se junta a uma plateia inicialmente desencontrada de si e do espaço. Agora sim teríamos algo em comum além de rir de gags.

Mas não é para se discordar que o conjunto de T3 carrega unidade, poder de invenção e ironia. Pode ser aqui ou em um buraco negro qualquer, como partícula ou como onda, no pretérito ou no perfeito, experimentar é um risco sem limites.