MITsp: ‘Suíte Nº 2’ liberta as palavras dos discursos vazios

MITsp: ‘Suíte Nº 2’ liberta as palavras dos discursos vazios

Leandro Nunes

03 Março 2018 | 12h19

No tempo em que substantivos ocupam boa parte das sinopses de espetáculos, a chance de uma peça ser sobre um conceito é grande.

Talvez como na gastronomia, público não come conceito, mas comida, já que boa parte da cena paulistana surfa numa onda na qual as palavras dizem o que as palavras dizem. E é só. Não há subjetividade, não há mistério, ambiguidade, dúvida e incerteza. Não se aprendeu com o absurdo e a ironia de Ionesco tampouco com a pulsão libertadora de Zé Vicente. Existe uma teoria e é preciso comprová-la no palco.

O que o francês Joris Lacoste traz para a quinta edição da Mostra de Teatro Internacional cabe em todas as ambiguidades possíveis. Suíte Nº2, nasce como documentação de palavra enquanto sonoridade e fluxo. Trata-se do espetáculo mais verborrágico assistido, nos últimos tempos, no sentido mais positivo da palavra.

A baixa adesão e os aplausos mornos da abertura da mostra foram o avesso da edição passada, cheia de protestos e vaias contra governantes, que dessa vez não compareceram.

FOTO: BEA BORGES

A peça não discute os temas que apresenta, reproduz diálogos políticos, acidentes, dramas e situações engraçadas e desde o início aqui é preciso abandonar a busca por enquadrar o trabalho em um assunto.

Talvez isso seja o impasse inicial, já que o hábito é falar a mesma língua (ideias) que a peça. Explico: quem vai num teatro clássico, sabe o que esperar, quem vai numa performance, o mesmo, e quem vai numa peça com artistas LGBT, também. Mais uma vez, o foco na ritmo, cadência e fluxo das palavras é o que determina a dramaturgia musicada.

O início com falas e diálogos mais simples, que prepara o publico para linguagem, ganha complexidade até o momento em que os cinco intérpretes reproduzem, cada um, falas de diversas origens, e idiomas.

Do meio para o final, essa Babel cênica então brilha, quando a postura particular da audiência desponta nas reações públicas, já que é possível aderir ou desistir de escutar certas vozes, acompanhar o discurso de um político português e sua urgência desconectada da realidade ou o diálogo entre um controlador e um avião que fará um pouso de emergência, um mantra numa língua estranha ou uma partida de tênis.

Assim, 0 riso que surge a partir da encenação é variado e sem o mesmo motivo, já que o ouvido de cada público passa a editar, incluir e rejeitar determinadas vozes e narrativas. O que se obtém é um panorama mundial no qual a língua é forma e conteúdo, objeto e abordagem.

Mais conteúdo sobre:

MITspJoris LacosteMITspJoris Lacoste