‘Macbettu’ restaura a conspiração de Shakespeare na virilidade da traição

‘Macbettu’ restaura a conspiração de Shakespeare na virilidade da traição

Leandro Nunes

08 Abril 2018 | 15h54

A sedução de Shakespeare foi bem sucedida no mundo quando as palavras citadas de suas obras refletem mais ideias que ações. É normal que seja assim, já que os registros das montagens originais não sobrevivem mais que os textos escritos, no máximo a imagem de um Hamlet que segura um crânio.

Mas antes o que era sedutor em sua obra, ao passar por objeto remoto mundial de apropriação cênica (ao lado de grandes, como Beckett, Ibsen, Brecht e Tchekhov), diz que Shakespeare pode virar tudo e qualquer coisa, a depender dos objetivos de quem o aborda.

FOTO: ALESSANDRO SERRA

Tudo isso para dizer que repensar clássicos na contemporaneidade vale menos se o próprio tempo não interferir no material, já que o pé da letra deixa poucas pegadas, e isso é natural e bom. O risco último é ser Heiner Müller, que ao demonstrar as raízes, não soterrou as ideias do autor.

O que Macbettu faz na versão da tragédia tem a ver, primeiro, com a compreensão do que é latente na peça e no nosso próprio tempo, período em o discurso e a forma parecem estar cada vez mais insolúveis entre si.

Na peça, da voz gutural ao grito zombeteiro que chama o regicida, o treinamento do elenco compete com a encenação de Alessandro Serra. Se no Brasil, é hábito negociar mentalmente, (sobretudo entre atores jovens) que fulano tem bom treinamento corporal, mas não tem boa dicção, ou que ciclano sabe usar a voz mas não o corpo, o resultado de bom treinamento e domínio de linguagens são evidentes em Macbettu.

FOTO: ALESSANDRO SERRA

Das grotescas e apaixonantes bruxas à presença magnética de Lady Macbettu, a direção constrói na materialidade do corpo as possibilidades entre a maldição e a culpa que acompanham o assassino. Este, conquista uma aura em cena que parece silenciar à força palco e plateia, quando fala. É como se o mundo parasse de murmurar para ouvir Macbettu.

 

Na direção de Serra, a conexão da Barbagia se estende entre códigos em direção a à evidenciação dos corpos. Desde o bando de porcos que se alimentam e seus guinchos estridentes até reduzir ao ronco dos homens que não sonham o correspondente menos selvagem do humano. Quando surgem os fantasmas, a peça abandona a escuridão para colocá-los às claras, como Banquo no jantar, e revela na luz, o abismo da loucura que se aproxima do novo rei. Já as três bruxas, ou o bêbado, transportam a tragédia para outro espaço, como apartes, números cômicos presentes nos intervalos do antigo teatro elisabetano. As rochas equilibradas celebram a morte por traição como um alerta fúnebre, um marco para corpos que aguardam por vingança.

Com um manejo da escuridão que lembra o encenador Roberto Alvim, o diretor intercala em quadros um elenco que mais parece um time. A virilidade destilada por Macbettu e Banquo, em afeto masculino, é indisfarçável na relação de políticos brasileiros, com a desvantagem de que, o sangue que mancha as mãos de um, continua pingando por aqui, e se espalha por todos, num grande acordo nacional.

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