Em ‘Extinção’, Denise Stoklos torna-se uma onomatopeia do teatro

Em ‘Extinção’, Denise Stoklos torna-se uma onomatopeia do teatro

Leandro Nunes

10 Maio 2018 | 20h38

Enquanto um teatro contemporâneo espera nas questões identitárias e seus depoimentos a trombeta final destes tempos que despertará a empatia adormecida no mundo, há quem precise se voltar para dentro de um jeito diferente, fazendo dos instantes de silêncio respiradouros pelos quais também vale a pena sobreviver.

A empreitada de Denise Stoklos em Extinçã em comemoração ao 50 anos de carreira  resgata a visão pessimista e obsessiva do autor Thomas Bernhard sobre seus iguais e seu país ao que a atriz engata numa revisão da própria carreira, sua vida pessoal, o teatro brasileiro e a extensão mundial de sua carreira com o Teatro Essencial.

Foto: Leekyung Kim

Nos primeiros minutos, a voz clara e límpida de Denise jorra como o anúncio de uma extinção da técnica entre os colegas do ofício desta geração. A sorte é que ela vem desenvolvendo um curso online para artista que deseja desenvolver projetos solo.

Mas não só a voz, a mímica-falante não cabe nos escombros de J. C. Serroni no Teatro Anchieta. Sua presença ao alternar entre trechos do texto de Bernhard e eventos da própria vida entrelaça-se com atenção da plateia.

Nesse sentido, a atriz torna-se magnética. No início, ao ler os diversos livros jogados pelo palco, os trechos necessitam que se suspenda toda atenção para o que está sendo dito. Em tempos de narrativas desidratadas ou frouxas, ouvir o mau humor de Bernhard na voz de Denise torna-se motivo para exercer poder e direcionar os sentidos nessa interlocução.

A ousadia da peça aparece quando — a atriz que sempre foi infeliz ao comentar a vida pessoal — pesadelos e a morbidez vivida fora do palco assombram a cena com pinceladas fortes e inesperadas. O corpo livre de sua geração ganha completude na consciência da libertação sexual mas também nos efeitos da experiência antes potencializada pelas drogas e entorpecentes que surgiam naquela época.

Foto: Leekyung Kim

Em Extinção, tem-se um relato não menos contundente que a presença acumulada da atriz na história do teatro. Nessa cinco décadas, a mulher que estreou Mary Stuart, em 1987, na mesma Nova York de Cat Power, comunica origens que não se contentam no abrigo de fronteiras. Ao pensar o Brasil em 500 Anos – Um Fax de Denise Stoklos para Cristóvão Colombo, a atriz essencial desafiou a ordem tradicional e anedótica de se “fazer” teatro no Brasil, uma vez que a própria invenção e continuidade de seu Teatro Essencial ainda soa como blasfêmia ao “não se faz teatro sozinho” dos ortodoxos.

Já na convivência com a netinha, ela descobriu que sempre é tempo de distinguir partes do corpo e dar-lhes novos nomes, num eterno descobrir. A ironia consigo mesma concede frescor à ao questionar, antes de todos, sua própria performance, a falta de memória, antecipando os vícios comuns do público de teatro.

A plateia então vê, como os provocantes olhos de Bette Davis, louvado por Kim Carnes, uma mulher afetada pela vida e pelos anos, uma testemunha de si, por vezes blindada e disponível apenas para observação, e em outras desfeita na própria acidez.

Entre escombros, Denise Stoklos vibra como uma onomatopeia visual que oferece às coisas algo além de seu próprio sentido. Sua exigência para tal aniquilação, como Bernhard, é o desejo por perspectivas verdejantes.

 

 

que merece ser atacada na