Cena Contemporânea: ‘Maratona de Nova York’ sustenta ilusão com simulacros do real

Cena Contemporânea: ‘Maratona de Nova York’ sustenta ilusão com simulacros do real

Leandro Nunes

29 Agosto 2017 | 20h13

O preconceito com que muitos atores de teatro olham a dança, Às vezes, soa como falta de talento para a arte do movimento. Quando o intérprete experimenta e falha na construção de uma poesia e técnica corporal, é comum recorrer ao teatro como espaço mais objetivo e afirmativo. Isso não significa que todo bailarino sem talento vira ator, mas que há muitos atores sem talento para as duas atividades.

Embora seja comum definir as fronteiras de teatro e dança, o chamado teatro físico busca um reencontro sem guerras e eventualmente consegue reunir o que há de mais provocante entre os dois.

Talvez esse intercâmbio retroalimentado tenha sido acionado pela dramaturgia do italiano Edoardo Erba em Maratona de Nova York. Os diálogos que nascem para falar de um nada casual talvez seja coisa rara de se ver no Brasil, diante de tantas dramaturgias ’empoderadas’ e ‘engajadas’ que concebem seitas no lugar de teatro.

Foto: Rômulo Juracy

Mas antes de entrar na montagem, não é possível deixar passar o volume incalculável – e necessário – de fumaça que se forma à espera de que a peça comece. Com um aviso escrito afixado, a peça já semeia simpatia e curiosidade antes de seu acontecimento.

O título da peça é outro elemento que desloca a consciência em um jogo entre o que se fala e de onde se está. A dupla de colombianos Andrés Caballero e Fernando Bocanegra, do El Hormiguero Teatro, participa de um treinamento para uma maratona em Nova York, mas ainda não estão em na cidade. A atração e repulsão irresistíveis provocadas na peça se instaura como lógica formal e estética.

Mesmo assim, tudo é muio simples de escrever e explicar. A dramaturgia é que dois amigos se preparam para participar da desejada corrida em Nova York. Só. A conquista da luz, cenografia e da sonoplastia em nublar o horizonte da sala de espetáculos em uma estrada com névoa que beira uma região de mata é a maior invenção da direção para codificar a montagem, já que todo o resto está posto e decifrado.

Foto: Rômulo Juracy

Com um texto que surge entre os respiros e fôlegos da dupla, Maratona de Nova York tem liberdade para dizer o que quiser, desde machismo, medos, traumas e esperanças, sem que caiba julgamento de valor pela declarações feitas em meio a escarros.

O estado real de fazer corrida parada assenta os corpos em clara comunicação, mais representação, os atores transpiram e isso signifaca apenas transpirar. A elaboração realista é pretexto para fundar um simulacro sem mediação que atravessa o conjunto de corpo, voz e ideia.

Ao longo de 60 minutos de duração, a montagem oferece chances de examinar a construção dos elementos visuais e sonoros, os corpos que multiplicam a si mesmos na repetição do movimento, e uma sugestão de unidade de tempo alternativa que flerta com a consciência da plateia sobre a temporalidade do evento teatral, dada uma diferença razoável entre o início da corrida dos rapazes com o início da peça.

Por conta desse fuso horário mínimo, em meia hora de peça, quando um deles afirma quanto tempo passou – e este tempo é menor – o lugar do encontro sofre uma distensão espaço-temporal. A ilusão criada arranha a realidade.

Na ciência isso se justificaria com a ideia de um homem na terra e outro dentro de um avião em movimento. Juntos, eles disparam um cronômetro. Dada uma distância, o cronômetro do sujeito no avião iria apontar um pequeno desnível. Em grandes distâncias, seria possível viajar no tempo.

Ao fim, a competição dos amigos leva os corpos ao limite da velocidade. Correr pode ser sinônimo para tudo, mas isso não é fornecido na conta da peça. Cada espectador que faça as elaborações filosóficas que quiser, mas elas não são necessárias para sair do espetáculo com uma recompensa.

Por fim, o desejo último que se mantém ao fim da montagem é o de ver os corpos interrompidos pela corrida, já com as luzes acessas e a plateia aplaudindo. Entretanto, a luz concebe outro subterfúgio que encerra a fábula. Enquanto se imagina os atores resfolegando, ou não, resta sair carregando a seduzido pelo simulacro.

 

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