Cena Contemporânea: Empatia não desembarca nas estações de ‘Barro Rojo’

Cena Contemporânea: Empatia não desembarca nas estações de ‘Barro Rojo’

Leandro Nunes

28 Agosto 2017 | 19h00

Ao olhar para o mundo, nem sempre fica claro a singularidade da luta LGBT. A homofobia e violência que se espalha tem a mesma forma para as pessoas, que parte de agressões verbais, preconceito e violência física. Mas as coisas ficam bem diferentes no caso do campo de concentração recente na Chechênia. O tamanho desse cerco pode ajudar a refrescar a memória dolorosa da Alemanha nazista, ditaduras e outras formas de totalitarismos que torturavam pessoas e dissidentes, sobretudo gays.

No Brasil, a violência autorizada e localizada é definidora por estar amparada, entre outras coisas, por uma classe de políticos declaradamente cristãos, machistas e homofóbicos. As travestis e transexuais que morrem no país que as tem como alvo diário nos coloca como nação mais que desenvolvida no quesito ódio. Para quem já deixou o país, a situação não é tão redentora, já que ser estrangeiro nesses tempos é desconhecer o próprio futuro.

Esse tipo de retrato passa pelo teatro brasileiro como força potente na criação de experiências cênicas singulares como BR-Trans, de Silvero Pereira, Luis Antonio-Gabriela, da Cia Mungunzá, montagens que capturaram, em suas particularidades, um panorama criativo e contundente na luta por fundar novos status de sobrevivência. Infelizmente, somos bem servidos de criatividade para comunicar essa dor solitária.

Foto: Junior Aragão

Quando o espetáculo espanhol Barro Rojo desembarcou em Brasília, seu compromisso e fidelidade conduzem a dramaturgia na narração da experiência do tio gay do personagem ao passar pela Alemanha nazista. A performance de Javier Liñera no Brasil já teria assim um canal de comunicação aberto por parte de quem sofre por ser LGBT. Mais que apresentar seu monólogo, o ator encontraria uma seara para se comunicar em terras brasileiras. Por isso mesmo, um passeio no Google daria mais informações para o ator que estes meus três parágrafos acessórios.

Ao expor a dor do próprio tio, o olhar crítico do ator para a história não aterriza entre a plateia. Sua preocupação com mudanças de figurino (alias, o que era aquela linda bota preta?!) distrai sua capacidade de alterar o próprio estado. No grande palco sobrou tempo para cantar, trocar de roupa, e caminhar, caminhar. Ao citar capitais mundiais e casos de homofobia diários, alguém grita na plateia: ‘Brasília!’, ‘Taguatinga!’. E é com surpresa que o ator parece estar ouvindo tais palavras pela primeira vez.

Quando se encara um tema tão universal, quente e real, é preciso treinar os ouvidos para perceber o outro. Ao se prestar em relatar o drama do tio, o ator toma distância de si próprio. Nem mesmo fica claro se ele é gay ou qualquer coisa. Atrás da capa de uma personagem qualquer ele se atém na trajetória do tio. A tentativa soa como desejo de colocá-lo como herói. Por ser gay e sofrer na Alemanha nazista? Desculpe, mas no Brasil ele é só mais um.

Na mesma medida em que a população LGBT sofre, o Brasil é especialista em criar memes com drags e chavões gays. Talvez por um desejo de sublimar tanto pesar, nós falamos ao mundo, com humor, mas também falamos com a dor da travesti Dandara, espancada e morta em março desse ano. Não é possível que um teatro sobre repressão e diversidade chegue aqui e não demonstre empatia no palco. Eu nunca quero ter que passar pela Chechênia e lamento por quem não o pode evitar. Barro Rojo só lamenta a perda de um ente querido em período nefasto porque não soube exercitar a alteridade que o faria descobrir que a plateia também pode ser uma família.

Mais conteúdo sobre:

Cena ContemporâneaBrasília